18 Novembro 2009

É uma fresta

Os meus desejos pedestres, seus delírios insanos, nossa culpa consciente. Vontade de fazer o bem, tentando mudar um roteiro que nunca termina. Nosso banquete móvel não é em Paris, mas não deixa de ser uma comemoração. Não nos perderemos na tradução, nem em nenhum dos 19 arrondissements. Talvez fiquemos para a temporada de espetáculos, ou fingiremos nos entediar com a demora para o inverno. Nada de visões que compensem a pobreza, falaremos de jazz, literatura barata, e do próximo bar a se embriagar. Vamos ler o Le Monde em algum café metido, e mentir para os amigos que somos vizinhos do Chico. Fugir nas datas festivas, para voltar só no fim de maio, com a primavera.

29 Outubro 2009

Dinâmica de grupo

- Muito bem, doutora Marina. Esta é a entrevista final. Quero ressaltar seu brilhante desempenho até aqui. Foram 2.312 currículos inscritos, quatrocentos candidatos pré-selecionados, oitenta passaram para a segunda fase, e você superou os outros cinco finalistas.

- Muito obrigado. Vindo do presidente da empresa, não posso deixar de ficar lisonjeada com o elogio. Foram três meses de processo seletivo, mas valeu a pena.

- Você mereceu. Agora tenho apenas uma última pergunta:

- Claro.

- Se você fosse uma flor, que flor seria?

Marina ficou em silêncio, pensativa, por alguns segundos. Todos os diretores em volta da mesa a olhavam com extrema ansiedade.

- Uma gérbera!, ela respondeu.

Um lamento generalizado acompanhou o olhar de desapontamento de todos na sala.

O presidente da empresa se levanta, e com o olhar contrariado, estende a mão para Marina:

- Muito obrigado pela entrevista, mas terei que dispensá-la.

Ela, sem entender, pergunta:

- Falei algo errado?

O presidente, sem a olhar diretamente nos olhos, responde:

- Sinto muito. Não posso contratar uma gérbera. Se fosse um crisântemo talvez, uma bromélia, quem sabe... Mas uma gérbera, jamais!

E terminou a entrevista.

06 Outubro 2009

Eu ex-machina

Chega uma hora em que o ruído se entranha. Os ombros pesam, e nada mais te emociona. Dinheiro não chega a ser uma solução, mas também não é o problema. São os ossos. Enferrujam.

A rotina aprisiona o alívio, e fora dela você já nem lembra. Os sentimentos viciam, as visões se repetem. Pensar em forma de funções, disso ou daquilo, para chegar ao mesmo resultado.

A liberdade e a escravidão são requintes de abstrações, necessárias, mas com distância. Nada que incomode. Ultrapassar os sinais virou norma, amarelo acelere. Tudo programado.

No intervalo, passava diante de um funeral, todos de preto, sisudos, quando ouviu um comentário sobre o defunto: "Ele não tinha inimigos"...

Instintivamente virou para trás, e sem se dar conta, respondeu:

- Puta cara chato ele devia ser!

Apertou o passo, diante de olhares estarrecidos.

Esse foi seu primeiro pensamento humano.

21 Agosto 2009

Piada de caserna

Depois do almoço, Editor passa com o café, rumo ao aquário.

Repórter: - Porra, caiu um avião na marginal, e nós não demos nada?

Editor: - Demos sim, e com destaque, foi abre de ímpar com foto e tudo.

Repórter: - Ah...

Editor: - Você não lê o próprio jornal em que trabalha?

Repórter: - Sou pago para escrever o jornal, não para lê-lo.

10 Agosto 2009

Sobre cartografias e oceanos

Sabe, Sabine, o romantismo se perdeu em algum lugar depois dos vinte e dois. O sexo fácil roubou o mistério, e o deleite termina em relações opacas. Não há termos inteiros, apenas meias verdades que mudam, e porque não, ora pois? Nunca poderíamos ter alcançado tudo o que queríamos para os trinta quando com quinze, mas ter chegado até aqui já está de bom tamanho. Sabe, Sabine, a vida não ter vindo com manual vai começar a te preocupar um dia. Mas não se preocupe porque isso passa.

Você começará a apreciar tardes de calor que te lembram praia, mesmo sendo a praia apenas uma distante lembrança há 80 km.
Talvez encontre alguém que saiba reconhecer seu bom gosto para escolher casacos, e se admirar com seus pequenos passos decididos. Sabe, Sabine, nem sempre isso acontece, mas quando chega a idade de perceber, já não faz diferença. Seria apenas uma mudança de estado, e movimento é sempre em relação a uma perspectiva, e não para.

Flui.

15 Julho 2009

Noves fora

Você pode chorar, espernear e negar, mas nada vai mudar o fato que se o Michael Jackson usasse havaianas ele nunca teria inventado o moonwalkin'. Até concordo com sua teoria sobre o coentro ser um castigo de deus, e sobre não se poder confiar em bebidas doces com nomes em alemão, mas é impossível negar que há sempre muito chão pela frente para quem está apertado. Fique alarmado toda vez em que aparecer em sua mão um guaraná em vez do seu copo de cerveja. E nunca esqueça esse conselho: Quando começar a fuleiragem, pegue suas roupas, vista-as, e vá embora.

17 Junho 2009

Suicídio amoroso por escrito

Meio dia e meia
um email
me divide ao meio
seria o fim o email
e o começo?
Teria o começo email
e fim?

Em meio a tantos meios
eu e minha dúvida
um e meio

25 Maio 2009

War

Eu tenho uma manhã e o mundo inteiro hoje, e não vou deixar que uma derrota que não foi minha atrapalhe meus planos de conquistar a Eurásia com apenas dois lances de dados.

20 Maio 2009

Equity fund

- Você está perdido, cara?

O inusitado da frase me pegou despreparado. Por instantes eu, que sempre tenho ao menos uma resposta pronta, nada consegui dizer. Pensei na pouca vontade de compartilhar que me assola nestes tempos, ou na fase casa-trabalho em que entrei há pouco. De fato, neste trimestre as ausências tem aparecido com mais força, mas nada que três noites de solidão não façam confundir com mera introspecção. Vinda de um brutamontes, cujo maior feito na vida foi produzir um bíceps maior que o cérebro, a pergunta ganhava contornos de realidade fantástica. Domingo a noite, eu cansado de ficar em casa, passo em uma balada no bairro ao lado, na qual ganhei uma garrafa de uísque e passe livre. Dentro há apenas poucos adolescentes, a maior parte acompanhando os dois grupos de pagode programados para se apresentar. Os grupos tinham mais integrantes que público, eu não tinha nada melhor para fazer, e dois copos do velho Jack para relaxar não cairiam mal para aquele fim de fim de semana. Mas sozinho, ali, naquele horário, entrando em uma balada falida, pego desprevenido por uma pergunta sartriana vinda de um bombado, eu fraquejei. Diante dos intermináveis segundos sem resposta, ele repetiu a pergunta ao me entregar a comanda:

- Você tá perdido cara?

- Agora estou, obrigado!

Mas decidi investir meu tempo aqui.

E afundo, perdido.

13 Maio 2009

Ego cego

Em meio a conversa com colegas da academia, jactava-se de ser um onanista de mão cheia.

29 Abril 2009

Trimestre da ausência

.

10 Março 2009

Viagem ao interior da Suécia

Um país de nove milhões de habitantes, com dois terços de seu território coberto por gelo ou floresta.

Pensava que a maior contribuição para o mundo fosse a banda ABBA. Estava enganado.

Os suecos inventaram o marca-passo, o air bag, o fósforo, o Prêmio Nobel, a dinamite, e as loiras bonitas que não olham para mim. Aposto que de todas, esta é a invenção mais exportada.

PS: Os suecos também inventaram a chave inglesa.

13 Fevereiro 2009

Ao longe, com azeite

- (...) Ora, direis, ouvir estrelas? Não, não as ouço! Não, não as vejo! Não aqui, onde elas deveriam abundar, por ofício e obrigação. Não nesta Casa. Talvez esse seja o problema...

Disse isso, e desceu do pinga-fogo da Câmara, ovacionado ao final de seu discurso. Aplausos emocionados até de opositores, há tempos não havia um orador de tamanha verve naquele púlpito. Que desenvoltura! comentavam os deputados naquela sessão atipicamente lotada devido à votação histórica da que ficou conhecida por Lei da Educação.

Um dos mais jovens deputados a se eleger por um partido independente em toda a história, foi o autor do projeto de lei que pretendia federalizar a educação. Mais conhecido pelo apelido de Doutor, devido ao grau precocemente conquistado na carreira universitária, tornando-se professor da mais reputada universidade do país. Seu passado ilibado e sua plataforma simples conquistaram o eleitorado letrado. Bradava, sempre que possível, seu slogan de campanha:

- Educação é uma questão de Estado, não de mercado.

Vestia-se sempre de preto, era taciturno, cabelos curtos, era admirado pela correção e honra, e tinha a fama de incorruptível. Já ocupara alguns cargos públicos, tendo se destacado em todos, e agora alçava voos mais altos.

Era conhecido por sua obra jurídica, inovadora e rigorosa, escrita com fluência e estilo. Um cinismo rápido e ironias eruditas perpassavam seu texto, que era referência até no exterior. Era versado em filosofia e latim, citava Virgílio de cabeça, com propriedade.

Mas em uma praia diletante ele já planejou a revolução. Os longos cabelos faziam sucesso com as meninas mais intelectuais, e a pose descolada ajudava muito. Usava conga nacional, enchia a cara com vinho barato. Chegou a comprar uma arma para a revolução vindoura, mas a trocou por uma coleção rara de discos do America. Borracho, fazia lista dos primeiros burgueses que seriam fuzilados, sempre iniciando com seu professor de matemática da sexta série. A lista terminava invariavelmente com o técnico da seleção, e assim foi por gerações e gerações de listas.

Naquele tempo ele não era jurisconsulto, tinha uma barba e estilo escancaradamente copiando Che. E escrevia poesias. Sim, ele era. Magro, um quê de Trapo, andava com um caderno pautado e uma bic roída nas pontas. Nos bares dos campi, subia nas meses e gritava que en la lucha de classes todas las armas son buenas: Piedras, Noches, Poemas.

Só por duas vezes alguém riu, identificando Leminski. Estava acostumado a falar para poucos. Talvez uns dois deputados ou mais identificaram Bilac. Essa era sua sina.

O tempo é o carrasco do sonho, o senhor do nosso inverno. Ele envelheceu, enveredou por outros caminhos. Raspou o cabelo, comprou terno, aderiu.

Ele, o mesmo que já disse que o homem é uma diarréia de deus. Ele, o mesmo que buscava o destino sob sete véus. Ele, o mesmo que conquistou 17 meninas diferentes dedicando a mesma poesia, “feita na hora”: - As palavras só me dizem você...

Trancado no quarto, ele maquinava. A labuta, a mais vã, gerava frutos. Durante anos ele executou seu plano.

Naquela noite, a polícia jamais imaginou encontrar, por debaixo daquele capuz, o deputado Doutor. Spray na mão, a moto ligada. Quatro e meia da manhã. O deputado terminava de assinar a pichação. Finalmente haviam encontrado o meliante que durante anos pichou poesias anônimas em propriedades privadas.

A Função Social do Espaço Urbano. Esse foi o nome da sua tese. Essa foi sua defesa. Escrita de próprio punho. Três editoras especializadas ofereceram rios de dinheiro para publicá-la. Ele aceitou a maior oferta, e destinou todo o dinheiro à Defensoria Pública. Não precisava do dinheiro. Nem chegou a ficar um dia na cadeia. Dizem que foi só de pirraça, para citar para o delegado, durante duas horas e meia, todas as leis que foram infringidas em sua prisão, a jurisprudência a seu favor, e terminar a explanação fazendo um apanhado da evolução de toda a filosofia do direito, dos pré-socráticos até hoje.

A prisão lhe rendeu uma notoriedade nacional instantânea, que lhe custou a cadeira na academia. Suscitou questionamentos. Afinal, ele tinha o direito de escrever no muro dos outros? Se era poesia, valia? Não seria apropriação indébita? Vandalismo? Romance? Porquê não publicava um livro? Porque ocupar e produzir no espaço alheio?

A carreira política foi um misto de vocação e alternativa. Agora era tarde. Seu projeto de lei seria votado, ele salvaria o futuro do país, seu bem mais precioso. A educação. Ele seria lembrado para todo o sempre.

Pouco antes do início da sessão histórica, ele foi informado de que o projeto não passaria. Disseram que era bom, bem fundamentado na teoria, e economicamente viável, impecável. Mas não havia interesse político.

Ao subir no púlpito, ele encarou o plenário com raiva, e começou seu discurso disparando. Uma atrás de outra, as palavras se encaixavam perfeitamente. Cada frase demolia um mito, e em nenhum momento ele deixou de criticar profundamente todos os seus pares. O discurso foi pura prosa poética. Ele pichou na história a mais dura crítica jamais feita naquele recinto. Teria ele o direito de, mais uma vez, pichar a propriedade alheia com sua poesia?

Um novo Lacerda? Um orador de esquerda? O iconoclasta necessário? O conformista diletante? Avaro? Santo? não se sabe ao certo. A resposta jamais foi dada. Desistiu da carreira política, e sumiu do mapa.

Dizem que passou a pichar poesias em outras propriedades, em novos meios.

Alguém certa vez o encontrou na rua, e perguntou por onde ele andava.

Com o olhar vítreo no horizonte, ele respondeu:

- Ao longe, com azeite.

27 Janeiro 2009

Nunca diga eu te amo 4

Porque você não tem o direito de ser tão importante assim na minha vida.

19 Janeiro 2009

Resposta à PsicoNada

Não canto para você aplaudir
Canto para existir
no meu canto

07 Janeiro 2009

Visionários

Ao cair da tarde a praia já estava completamente lotada, abarrotada de fiéis de todos os tipos, tamanhos e cores aguardando em profunda apreensão. Apenas o barulho esparso e constante das ondas quebrando mansas rompia o silêncio pleno da paisagem. O momento mais aguardado enfim começa, e o locutor anuncia no microfone que é chegada a hora do sermão do Grande Profeta. Ao mesmo tempo em que o sol se põe, um senhor esquálido, trajando uma túnica tão branca quanto sua longa barba e cabelo, entra no palco improvisado no topo da montanha, defronte a uma plantação de limoeiros. O Profeta anda devagar, com o auxílio de seu cajado, e se dirige ao microfone. Encara a multidão, aperta os olhos contra o vento na direção do horizonte. Aponta o oceano, e grita:

- Um dia o mar vai virar sertão...

(a multidão em transe repete em coro as sábias palavas do mestre)

- Um dia o mar vai secar, e toda essa imensidão azul vai virar um deserto de sal!

(a multidão se emociona, e reflete sobre o que diz o guru)

- Serão quilômetros e mais quilômetros de sal, montanhas e cordilheiras de sal, vales e abismos de sal, milhões e milhões de toneladas de sal, sal por todos os lados. E quando esse dia chegar....

A multidão delira, e espera longos minutos por mais palavras do Profeta, que irrompe:

- ... a gente vai ter que ter tequila pra caralho!

26 Dezembro 2008

Olvidado

Ontem eu queria ser hoje um pouco menos.

03 Dezembro 2008

Boy's night out

O quarto chopp desceu aliviando os pensamentos carregados de trabalho daquela quinta-feira de calor, a conversa animava sem compromisso, quando concluí:

- ...e só o que quero agora é uma mina gata e de bem com a vida.

Ao mesmo tempo, duas amigas, longe de suas respectivas namoradas, contestam:

- E não é isso que todo mundo quer?!

(risos generalizados)

- É...

Fashonably late 2

E dois mil e trezentos anos depois as sandálias romanas voltam à moda.

18 Novembro 2008

Pièce de résistence

Se foi necessária a força para derrubar a idéia, a força perdeu.

Toda derrota da idéia contra a força é, no fundo, uma vitória.

03 Novembro 2008

No sentido de existir

Se você condiciona sua vida a não ter esse cara, o que está te faltando é vida, e não o cara.

17 Outubro 2008

Ah, é?

Informações (in)úteis que me fizeram pensar um pouco ultimamente:

A moda de usar roupas maiores do que o corpo, bastante popular entre os adolescentes da periferia, nasceu no subúrbio de Los Angeles. Os meninos mais novos herdavam as roupas de seus irmãos mais velhos e as usavam no mesmo instante, o que acabava por mostrar parte da cueca, e fazia camisas de times de beisebol parecerem vestidos. Pela lógica, quanto maior a roupa, maior o irmão mais velho, sendo este um ativo valioso entre a gurizada da quebrada.

A primeira reação de uma vítima de estupro é, compreensivelmente, tomar um longo banho, atitude que os legistas, compreensivelmente, lamentam muito, pois elimina quase toda evidência genética do crime.

A palavra máfia inicialmente designava um bairro de Palermo, capital da Sicília.

A idade média em que um italiano sai da casa da mãe é 35 anos, já os brasileiros saem aos vinte e muitos anos, e os finlandeses acho que perto dos doze.

O primeiro Campeonato Brasileiro de Tiradores de Chopp foi vencido por Gil Bambam, em algum mês obscuro de 2008.

09 Outubro 2008

B.S.B.

Quando ela descobriu foi uma decepção. Um encontro fortuito, profissional, e um email. Matou um universo e abriu um mar de curiosidade. Quem seria ele, afinal?

Aroldo Jorge Guilherme era platinado, com jeito de galã francês de meia idade. Usava cachecóis e sobretudo, e estava no auge de sua diversificada carreira. Coadjuvava com certo destaque em uma novela popular, dirigia uma peça mediana, e estava escrevendo o roteiro de seu longa. Ainda colhia o sucesso do seu último romance, Onde os poetas nunca morrem, lançado na última primavera. Era reconhecido na rua, tinha fãs, principalmente as mais novas. Mas o livro lhe dera um verniz que agora chamava a atenção das mulheres mais velhas, e até elogios dos críticos.

Por trás das grossas armações dos óculos quadrados moderninhos, ela levantou seu olhar inteligente. A carreira na editora, após passagens por órgãos públicos e multinacionais, estava engrenando. Pensava que estava quase realizada profissionalmente quando a porta de sua sala abriu. Era ele. Aroldo Jorge Guilherme.

Sua paixão secreta. Já o achava bonito desde a última novela das seis, quando ele interpretou um jornalista descolado, que pegava onda e tocava saxofone. Foi duas vezes ver a peça que ele dirigia. Sonhos platônicos. Mas, depois do primeiro livro, Corações do infinito, os sentimentos afloraram. Além de tudo era culto, sensível, brilhante, ela pensou. Almas gêmeas. E agora ele ali, entrando na sua sala.

Trazia um rascunho de seu terceiro livro, com título provisório de Visões d'alvorada. Vestia uma velha bermuda cinza, tênis surrado sem meia, estava despenteado e com os olhos semi-cerrados. Cantou a recepcionista, se jogou na cadeira, sentou de pernas bem abertas, e perguntou mais uma vez seu nome. Ela não acreditava. Ele estava ali.

A manhã seguinte foi silenciosa, lembrando o caloroso aperto de mão que ele lhe dera na despedida, o olhar de sedutor barato com que ele se despediu. Havia algo estranho, mas ela não sabia bem o que era. O artista portava-se como um adolescente tardio. Não parecia ser a mesma pessoa delicada que escrevia livros lindos, cheios de poesia. Tocou o telefone. Era ele. Convidando-a para sair. Taquicardia. Até as oito então.

Foram para um bar movimentado, ele gostava de ser reconhecido, adorava autografar seu nome em qualquer oportunidade que aparecia. Pediu bebidas doces com nomes exóticos, comeu muito e não deixou de olhar nenhuma das mulheres bonitas que passavam ao lado. No caminho para casa, dois beijos e uma tentativa de subir. Ela disse que o apartamento estava uma bagunça, ele quis entrar na bagunça dela, mas amanhã ela teria uma reunião cedíssimo, teria que ficar para uma próxima. Mentira. Não havia reunião. Só uma sensação estranha.

Quatro dias depois ela terminou de ler o terceiro livro. Maravilhoso. Surpreendente. Tocante. Ela enviou-lhe um email confirmando a publicação para o fim do ano. Convidou-o para um outro jantar. Ele agradeceu a publicação e o convite, mas declinou o último. Disse estar envolvido no momento, mas que "sempre haverão oportunidades". Ali seu mundo ruiu e começou novamente. Esse foi o sinal. Ali o mistério. Ele não era o autor dos livros. O verbo haver, no sentido de existir, não flexiona no plural. O autor dos livros jamais erraria isso.

A dúvida se agigantou com os dias, e a certeza da incerteza a enlouquecia. Releu os livros. Investigou a vida de Aroldo. Duvidou do embuste. Até que veio a luz. O revisor. Só podia ser ele. Voou para os livros e procurou ofegante nos créditos. Só constava o nome do revisor da editora. Mas os livros já chegavam corrigidos, sem nenhum erro. Pensou duas coisas. Uma: o revisor da editora estava ganhando sem trabalhar. Duas: teria que descobrir quem escrevia os livros para Aroldo Jorge Guilherme. Mas como? Não poderia ligar para ele e perguntar diretamente. Perderia o cliente.

O email. Aroldo lhe encaminhou o primeiro livro por email. O autor deveria ter mandado a mensagem original. A mão tremia no mouse, a testa suava, e ela não achava o maldito email. Teria apagado? Não. Aqui estava. Desceu a tela angustiada. Achou somente as siglas B.S.B., e um texto escrito em português castiço, denotativo, sem erros. Sem sombra de dúvidas ele era o autor. E ela estava apaixonada por um ghost writer.

29 Setembro 2008

Recompondo

Abre o olho. Segunda-feira. Porra, como eu cheguei aqui? Onde é que eu estou? Eu lembro de ter falado para o flautista que ele era covarde, se escondia na hora de aparecer. 7:24 da manhã. Eu tô numa água, com certeza. Eu nunca acordaria nesse horário. O negócio foi feio. Deixei metade da cerveja na garrafa. Discuti Lou Reed. A calma com que ele fala “take a walk on the wild side”. Essa calma é de quem conhece. Acho que a gente já conhece um pouco. Cai na noite, mas sem se ferrar. A calma de quem já se ferrou. Hoje, só curte. Sim, vamos pirar, mas presta atenção na voz dele. Ele não se afoba. Teorias sobre a idade de conquistar o mundo. “Agora, se a gente se dana, é querendo, é sabendo, só pela diversão”. Conselhos vários para um futuro filho: respeite o sete cordas e o bumbão. Não sem querer eram os dois únicos com cabelo branco na roda. Assumir o bumbão tem que ter sabedoria, mas, principalmente, malandragem. E o sete cordas é muita responsa para qualquer muleque. É como mulher na mão de menino. Sobra. E agora, o que é que eu vou fazer às sete horas da manhã de uma segunda? A dor de cabeça passa com água e coca-cola, mas a geladeira só tem leite batido e chocolate de ontem. Quem é que estacionou o carro, meu deus?

11 Setembro 2008

Viagem ao interior do Brasil 5 - Lua encoberta sobre o Rio Negro

O manauara é o mineiro do Norte.

28 Agosto 2008

Hertz and hearts

Um dia ele falante, expansivo, comunicativo, ficou quieto.

Todos ouviram o silêncio.

Ninguém ouvia o grito.

12 Agosto 2008

Arquivos Cheese

- A verdade está lá fora, mas aqui dentro tá tão quentinho...

08 Agosto 2008

Reflexo feminino incontrolável

E em meio aquele caos emocional, financeiro e familiar ela tinha a absoluta certeza que se fizesse uma lipoaspiração naquele final de semana tudo estaria resolvido.

04 Agosto 2008

O homem que copiava

Recebi o maior elogio de minha curta carreira literária. Mas já explico.

Primeiro quero agradecer outros elogios legais, da LuciAne, que achou linda minha poesia chamada Pósliminares, e que me achou "intenso demais nas palavras", ao ler minha poesia chamada Luto.

Mas não adianta tentar encontrar estes elogios nos comentários das respectivas poesias neste blogue, porque eles foram feitos no site Recanto das letras, espaço dedicado a autores que não tem onde publicar seus textos.

O problema é os elogios de LuciAne foram feitos para a poesia Intermitente presença e Luto, do escritor profissional Marcos Beccari.

Isso mesmo! Pela primeira vez em minha vida fui escancaradamente plagiado!

De início fiquei estupefato. Quem seria o sujeito medíocre que plagiaria meus pobres textos? Com tanta gente boa e de renome escrevendo por aí, porque escolher justamente meus textos para plagiar? Será que ele não esqueceu, sem querer, de citar a fonte?

A linda Lady in Red me avisou que, ao procurar modelos de fotologs, se deparou com o endereço do indivíduo, e reconheceu um de "meus" textos (doravante colocarei os pronomes pessoais caracterizados, para facilitar a localização do leitor).

Tomei a liberdade de pegar emprestado uma parte de um dos últimos textos deste sujeito, que se descreve no site como escritor profissional:

Não retornável

Na fonte da calçada da rua visconde do rio branco a água brotava discretamente por sob o concreto, fazendo pequenas bolhas entre meus dedos do pé, calados dentro da meia, descalçados pelo furto. No colorir do amanhecer, ainda longe do barulho da cidade, meus pensamentos boiavam acompanhando o brotar daquela água que insistia em não estagnar, nunca, nem quando confrontada com as pedras jogadas em cima, para matar o tempo. Na simbologia elementar alquímica-meta-quântica-filosófica-hermenêutica a água representa a emoção, o sentimento. A fonte encerra, ao mesmo tempo, um sentimento parado e em movimento, uma dualidade que não poderia ser mais perfeita.
(...)

Para aqueles que não reconheceram, favor descer os olhos para Crônicas do Coração da Terra, dois textos abaixo deste aqui.

Impressionante, né? Qualquer semelhança não é mera coincidência, e ele ainda se deu o trabalho de modificar algumas palavras. Discordo do bom gosto das mudanças, mas talvez ele ache que esteja corrigindo alguma coisa que errei, ou somente adaptando a obra a seu gosto.

O interessante foi ver que o nosso colega, escritor profissional, nunca deixou nos comentários nem um alô, um "admiro seus textos", ou quem sabe um "vou te copiar mas não conta pra ninguém, tá?". Juro que manteria em segredo. Mas ele nunca se revelou, nem deixou sinal neste meu espaço.

Se ao menos ele tivesse feito como escrevi há algum tempo atrás (1 x 1). Não seria original, mas seria mais divertido.

Entrei em sua página no site, e tive o trabalho árduo de ler (na verdade passar os olhos) suas(?) 169 crônicas, 155 pensamentos, 18 prosas poéticas e 8 poesias.

Descobri que sou responsável por 7 crônicas, 2 poesias e 10 pensamentos do Marcos. Não emplaquei nenhuma na prosa poética.

Também descobri que ele copiou meus colegas do Diferença Nenhuma, Caos Portátil e do Cada Qual, e estes são só os que percebi. (Insone, não te disse que você não era desinteressante. E você, Poeta, podemos finalmente dirimir nossas dúvidas de quem é melhor na prosa. Temos um referencial independente: ganha quem foi mais plagiado)

Mas a contagem é difícil, porque ele(?) cola frases de textos dos outros, emenda tudo, faz uma miscelânea estranha. Teremos que definir melhor os critérios, se vale só uma frase, meia frase, citação, etc.

Com o tempo comecei a advinhar apenas lendo os títulos quais textos eram "meus". Primeiro porque conheço bem "minhas" temáticas. Segundo porque, uma coisa é certa: o indivíduo tem bom gosto. Escolhe quase sempre dentre meus melhores textos.

E ele definitivamente tem senso de humor. Logo abaixo de cada um dos textos há a seguinte mensagem, que também é exibida quando se copia qualquer coisa da página:

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original) e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.


Ok, mesmo considerando que não poderei fazer uso comercial de "minhas" poesias e textos, (também estou rindo agora), percebam que, conforme grifei, ele está descumprindo as regras da licença sob a qual ele tomou a liberdade de registrar "meus" (oops) digo, nossos textos.

Vocês ainda acham que ele não tem senso de humor? Então leiam o que ele escreveu em um de seus(?) textos, chamado Abnegação:

Tenho escrito muito ultimamente, mas sinto que não consigo estabelecer um padrão textual conveniente. Acho que vou começar a escrever sem ler... mas aí vou parecer o Diogo Mainardi escrevendo. Então vou pensar bastante antes de escrever. Ah não, assim vou parecer o Max Gehringer escrevendo... Então vou pensar um pouco, ler só metade e fazer umas sacadas legais... Mas aí vai ficar igual ao Dan Brown. Merda. Então vou começar a escrever o puro lixo que escrevo normalmente e vai sair igual ao Marcos Beccari. Obrigado, obrigado.

Para não ser injusto, cito aqui a fonte:
http://recantodasletras.uol.com.br/pensamentos/596202

O melhor de tudo é que ele realmente inova, ao inventar o meta-plágio. É o plágio dentro do plágio. Em um de "meus", digo, nossos textos, ele muda a cidade em que se passa a narrativa, acrescenta, como de praxe, frases rasas e de mal gosto, inserindo ainda uma citação a outro texto "meu". Uau! Acho que, além de conhecer muito bem minha obra (que emoção usar este termo!), tem por mim uma espécie de deferência que chega a me encabular.

Algo que me espanta é que os amigos-leitores dele (oops) nossos, não tenham percebido as diferenças entre os textos dele(?) e "meus" ou nossos, tanto faz, como ele preferir. Uma análise um pouco mais atenta notaria as óbvias diferenças de escrita e temas.

Ele, quando ele(?), é brutalmente depressivo, misantropo, mórbido, monotemático, escatológico, falsamente lírico, além de utilizar fartamente palavrões, com destaque para Merda, seu favorito, presente em três de cada cinco de seus(?) textos. Há, ali e acolá, algumas frases boas ou uma e outra idéia mais interessante. Mas como não fiquei "googando" todos os textos para saber se são efetivamente dele(?), desisti de tentar identificar algo como um estilo, portanto, justiça seja feita, minha análise é parcial.

Tenho medo, e me desespero só de pensar que não consigam diferenciar minha escrita da dele(?).

Será que nenhum dos meus (esse é sem aspas mesmo) poucos leitores contumazes perceberia se um dia eu iniciasse um texto assim:

Graças à raça humana, o mundo foi abençoado com o papel higiênico

ou

"Viva o momento". Este é o meu lema.

ou ainda

O que leva uma pessoa a guardar o próprio ranho dentro de si mesmo? Apego afetivo ao muco? Geralmente é quem não toma coca-cola. Afinal, não sente a necessidade de liberar gases com freqüência e se acha super educado e limpinho por isso.


Frases retiradas, respectivamente, do texto "Aroma de Merda", e de "Sinal Vermelho", e "Introspecção", tendo todos os nomes hiperlinks para os originais(?)....rs....

O que mais me irrita não é o fato de pensar que talvez a internet dilua tanto "meus" textos que eles acabem passando para a eternidade como textos do Marcos Beccari, escritor profissional. Não tenho essa necessidade tão grande de projetar meu nome, tanto que neste meu blogue (este meu mesmo, este que você está lendo agora) eu jamais citei nomes próprios ou me identifiquei como qualquer outra coisa que não fosse o vizionario. Já o sujeito coloca o nome em negrito até em assinatura de portaria.

Mas o que me tira do sério é saber que estes textos poderão ser repassados com as alterações e inserções dele(?)! Desfigurados, dilacerados com aqueles comentários ridículos, estuprados com frases baixas e sem classe. Aquelas montagens toscas misturando, inadvertidamente, um texto com outro.

Como bom conhecedor da minha obra que é, ele(?) viu que no texto 1 x 1 (com link acima), "eu" disse expressamente que "ninguém suporta um texto ruim que não seja seu". Mas ele deliberadamente ignorou isso. Ou não, porque os textos, do jeito que ficam, melhor serem dele mesmo, para não queimar meu filme.

Eu sei que a obra transcende o artista, e que este não tem voz ativa no destino daquela. Até achei bonito essa coisa de reinterpretarem minhas idéias, fazerem colagens delas. Isso em termos artísticos se chama apropriação, e faz parte do processo de fruição estética. A pessoa se identifica com a obra, e agrega elementos que a trazem para o seu cotidiano.

Mas cita a fonte, caramba!

Porque nós sabemos, digo, eu sei o quanto me custa ser original. O mínimo de decência que se pode esperar é o devido crédito pela criação.

Enfim, de qualquer modo, preferi encarar toda a situação como o maior elogio literário que já recebi. Ninguém copia algo e coloca seu nome em cima se não gosta do que copiou. Ele gosta tanto do que escrevo que finge que é dele, e isso eu chamo de admiração. (na minha terra isso tem outro nome também, mas deixa para lá vai).

Obrigado pelo elogio, Marcos.

Vê se aparece mais neste blogue, se identifique, e sugira temas para nossos próximos textos.

01 Agosto 2008

Ambígua

Penso em você ouvindo esta música, mesmo antes de conhecê-la.

23 Julho 2008

Crônicas do Coração da Terra

Na fonte cordiforme a água brotava discretamente por sob o solo, fazendo pequenas bolhas entre meus dedos do pé, semi-enterrados na areia cálida. Na clareira, longe do barulho da cidade, meus pensamentos bóiam acompanhando a folha de nogueira que insistia em não afundar, nunca, nem quando confrontada com as pedrinhas jogadas em cima, para matar o tempo. Na simbologia elementar alquímica-meta-física-astrológica-esotérica a água representa a emoção, o sentimento. A fonte encerra, ao mesmo tempo, um sentimento parado e em movimento, uma dualidade que não poderia ser mais perfeita.

Ali, na clareira, eu estava parado em movimento. Gerando para ser represado, brotando para dissipar.

Emoções paradas não deixam de gerar. Durante muito tempo também represei, esticando até o infinito o limite tênue entre o controle e o transbordar. Durante muito tempo estive como a fonte, escondido em uma clareira perto de tudo, mas longe do mundo. Brotei das entranhas, quieto e independente, impassível mas permeável, recolhido e universal. Parte do ciclo. Mas o ciclo se parte um dia, e por isso, sozinho, eu pedia, em reza e rima: qualquer desanteção, faça não.

15 Julho 2008

House

- A pior nora que existe é a noradrenalina, porque ela dá uma tentação na cabeça da gente...

09 Julho 2008

Previsão do tempo

Tenho uma frente fria guardada no peito. Periga chover.

02 Julho 2008

Sur la finesse

A capacidade de demonstrar elegância só é efetivamente testada em situações adversas, nas quais os falsos se entregam, e só os nobres conseguem ser realmente elegantes.

No dia 16 de março de 1914, madame Henriette Caillaux se dirigiu à redação do jornal Le Figaro, em Paris, para conversar com o diretor do periódico, monsieur Gaston Calmette. Ele havia publicado no jornal algumas cartas com severas acusações difamando o ministro francês das Finanças, Joseph Caillaux, marido de Henriette, e intencionava continuar a publicação.

No encontro, após algumas breves palavras, Henriette sacou um revólver e meteu quatro balaços no peito do jornalista.

Em pouco tempo o escritório de Calmette era invadido por funcionários do jornal, que tentaram acudir o diretor baleado. Este, antes de morrer segundos depois, teria murmurado:

- Peço que me desculpem, não me encontro bem.

Quando os funcionários foram deter Henriette, ela exclamou:

- Não me toquem, eu sou uma dama!


Em tempo: Henriette foi absolvida em um julgamento controverso, no qual seu advogado alegou que o crime não foi premeditado, mas sim fruto de um "reflexo feminino incontrolável". Algum tempo depois, Henriette veio com o marido dar um tempo no Brasil.

23 Junho 2008

Fatti su misura

Você não entende o significado da palavra gentleman, tampouco reconheceria um ainda que ele não gritasse em sua frente.

17 Junho 2008

Graal

Descobri teu segredo, ó Poeta!
É o silêncio da cama da noite
que em ti reverbera

07 Junho 2008

Cumpleaños

Rá-tim-bum, Juninho, Juninho!
- E quantas velinhas tem aqui?
- Contando com a vovó, seis!
- Não filho, é velinhas, de velas, no bolo.
- Ah...

30 Maio 2008

Nunca diga eu te amo 3

Porque meu lado esquerdo do peito foi loteado, e você ficou com a vista para o mar.

16 Maio 2008

Para apontar um dedo

O julgamento moral é o mais complicado que existe. Qual a régua da medida do caráter dos outros? Se tem uma coisa que gosto em escândalos midiáticos é que eles forçam o público a manter a hipocrisia, mormente com o "quem diria, hein?" ou o clássico "Até tu?".

Fatos e dados: Tem que ter muita moral para julgar quem quer que seja. Não conheço ninguém que tenha.

As palavras ficam, ferem e fecham, quando mal ditas. Prefiro as não ditas. Na dúvida, a balança da alma pende para o lado da mágoa.

Para apontar um dedo, há sempre três apontado para você.

E isso diz tudo.

05 Maio 2008

Último ano de nossos vinte e poucos

A grande amiga mme. Rocamadour fez vinte e tralalá ontem. Lembrei hoje, no mesmo dia em que encontrei quatro fios de cabelos brancos (ainda acho que são apenas muito loiros) em minha cabeça.

Lembrei de um pacote de bolachas que levei para ela quando esteve doente (na época havia o slogan "Biscoito São Luis, coisa de amigo!"), da fita K7 do Jovanotti que ganhei de presente certa vez (ainda a tenho em algum lugar), e de como não pensávamos em absolutamente nada naquelas semanas de folga do cursinho.

Dez anos se passaram, estou pensando em comprar uma moto, ela casou e vai muito bem, obrigado, mudei de cidade, de silhueta e de perspectiva, ela preferiu ser feliz a ter razão, eu começo a repensar esta escolha, ela é meio argentina e quer fazer cinema, eu sou meio italiano e ainda não consegui morar em Paris.

No último ano de nossos vinte e poucos, poucos vinte para nossos anos últimos.

25 Abril 2008

Águas passadas moem moinho

Dezessete meses depois ele fazia o mesmo caminho conhecido. Após treze horas de avião, seis de ônibus, dois metrôs e um táxi, ele virava a última das nove quadras do loteamento.

Tocou mais uma vez a decorada campainha, lembrando da primeira vez.

Ela abriu a porta, e a boca de espanto, ao vê-lo ali, maltrapilho, mal dormido, um pouco bêbado e com a cara limpa.

Tentou falar algo quando ele, olhando nos olhos, exclamou:

- Eu só vim aqui pra dizer que me importo!

E saiu caminhando lentamente.

16 Abril 2008

Reclames

Alguma coisa se perdeu no intervalo. Alguma coisa sempre se perde no intervalo. O primeiro toque, o primeiro passo, a cena inicial, o desfecho de tudo. A resposta certa sempre vem depois, o fim do salário sempre vem antes, mulheres e crianças primeiro, salve-se o que puder. Entre dois instantes imprevisíveis, cortes e planos longos, pausa no ponto de fuga a falta de perspectiva. A vida vista do outro lado da tela abre uma janela ao porvir, esse danado irrascível. E por um lapso de segundo frenético, a possibilidade desacontece, desacontecendo. Todos os castelos de areia, sólidos em sua contemplitude, se desmancham na primeira marola. Os exércitos de probabilidades convocadas já não entram em campo, e a indecisão vence o medo ou perde a batalha. Alguma coisa sempre se perderá no intervalo.

08 Abril 2008

Piano bar

E Luiza era tocada ao piano, enquanto ele a esperava no bar do hotel em Belo Horizonte. Ela não viria, ele sabia, mas aquela, ah, aquela música. O barulho do gelo batendo no cristal do uísque estava no tom, ele colocou aquela roupa casual descolada pensando em ser alguém que não era, esperando alguém que não viria. Pediu um cigarro emprestado e depois se arrependeu, fingiu que mandava mensagens no celular, começou a escrever um roteiro em um guardanapo.

Foi embora duas horas depois, ao som de Carinhoso.

03 Abril 2008

Sobre não lidar bem com críticas

Entre tipos e arquétipos é necessário fazer uma escolha, ainda que esta seja não escolher nada. Omissão também é ação. Usa-se diferentes personas em diferentes situações, e colocar um pouco de tinta colorida aleatoriamente sobre a máscara, dizendo que inovou e é distinto, é só poeira retórica de auto-afirmação.

O velho clichê misantropo reinventado pode até cair bem para o concreto cinza de São Paulo, mas isso também é clichê. O underground, assim como a arte, caminha de mãos dadas com o capital, ainda que ambos o desperezem. Meias coloridas, roupas nada monocromáticas compradas em brechós perdidos, e muita pose para parecer o grande-intelectual-andrógino-com-óculos-quadrados-moderninhos podem fazer sucesso na baixa Augusta, onde todos são iguais e citam livros e autores que não leram ou não entenderam, só porque ninguém os conhece.

Mas o fato é que sua modernidade não te livra de estar tão sozinha e perdida quanto qualquer nessa cidade, Clarice Linspector é um saco, e eu prefiro a breguice elegante das curtibanas à sua pose oca de underground urbana.

19 Março 2008

Generalizações Genéricas

Se uma mulher te chama de "Cachorro" ou "Cafajeste", você se deu bem. É público e notório que mulheres não resistem a ambos os tipos (são dois?), por mais que neguem ou finjam preferir aquele banana chicletão.

Se ela te chama de "Fofo", você se deu mal. Elas reservam este adjetivo para aqueles caras legais com quem elas vão conversar quando um cafajeste e/ou cachorro faz algo previsível como: trair, dar um pé-na-bunda, trocar por futebol, mentir que vai jogar futebol, sair sem dar satisfação, viajar e não avisar, não ligar no outro dia, pegar uma "amiga" em comum, etc etc etc. O "Fofo" é o idiota útil que tem bons conselhos, mas nenhum poder de sedução.

Lembro de uma cena clássica, em um dos filmes dos X-Men, na qual a Jean Grey está conversando com o rosto a um palmo do Wolverine, e declara: "As mulheres flertam com o perigo, mas casam com os bons moços". (Women flert with danger, but they marry the good guys)

Acho que é por isso que o casamento está falindo.

05 Março 2008

Casa Nova

- Eu, você, champanhe e morangos?
- Como?
- Eu, você, champanhe e morangos?
- Como assim, eu nem te conheço!
- Então, mais um bom motivo para sairmos juntos. Na minha ou na sua?
- Vê se te enxerga, mané! Eu aqui, na fila do banco, e ainda tenho que ouvir isso?
- Podemos ouvir aquele do Roberto, lá em casa.
- Você está louco!
- Ok, na sua então. Mas eu só tenho em vinil.
- Escuta aqui, em primeiro lugar, eu nunca te vi mais gordo. Em segundo lugar, você não faz meu tipo. E por último, eu odeio homens de bigode!
- Eu também.
- Eu também o quê?
- Também odeio homens de bigode. Temos algo em comum.
- Que absurdo! Isso é algum tipo de pegadinha?
- Não. Mas pode ser. Quer?
- Que absurdo! Você não tem vergonha?
- Não enquanto eu estiver de cuecas. Depois é outra história.
- Eu mereço! Pegar fila de banco na sexta-feira e ainda ser cantada por um baixinho de bigode. Pode?
- Não, deve. Quer?
- Olha, meu senhor, o senhor me respeite, que eu sou moça muito direita...
- Nisso a gente dá um jeito.
- Vem cá, alguém já te disse que você não vale nada?
- Só meu corretor de seguros.
- E ele acertou em cheio!
- Não, eu acertei em cheio, na última mega-sena, acumulada. Vim aqui retirar o dinheiro.
- Mentira!
- Não é não. Olha aqui o bilhete...
- E você vai fazer o que com esse dinheiro todo?
- Achar uma mulher para viajar o mundo comigo nos próximos dois anos.
- Veuve Clicquot ou Moët Chandon?
- Como?
- E eu prefiro na sua... casa nova.
- Hein?
- Cala a boca e me beija!

28 Fevereiro 2008

Never turn your back to the mirror

O poder do pensamento adverso realmente não pode ser subestimado. Desde pequeno aprendi a não revelar planos, sob pena de ver a força da idéia e do projeto se dispersar em palavras. Também de guri sabia que jamais se deve cantar vitória, mesmo quando vencedor, sob pena de ver o esforço desmerecido. Em suma, não tenho uma desculpa plausível para, em minha empolgação, ter esquecido tudo isso e propalado a mil ventos pequenas conquistas e bonança. "Foi o melhor inferno astral da minha vida", dizia, achando ter passado incólume pelo período. Lêdo engano, pois mal acabava de me gabar, e pequenos revézes se sucediam, minando minha decolagem no período em que eu estava "gaining momentum", diriam os periodistas anglófonos. O peixe morre pela boca. Muitas vezes não é o desejo do inimigo, para quem não se revelam segredos nem sucessos. É o "porque não eu" do amigo que te ancora. Derepente tudo o que é sólido se desmancha no ar. E não é o grande tombo o que te derruba, e sim os pequenos tropeços, no começo do caminho. As andorinhas primeiro levantam a cabeça antes de alçar vôo, disse alguém aí, mas o que fazer quando o sol te cega?

15 Fevereiro 2008

Tempo regulamentar

Estavam a um beijo de mudar tudo. Dois corações pendurados em um fio para o infinito. Naquele instante o mundo parou. Estavam a duas músicas do fim do disco. Um moinho de vento entre dois lábios. O futuro a partir daquele momento. Caminhos e caninos expostos duvidavam até de sorrisos. Estavam a três versos do refrão. Respiração trêmula em olhos inertes. Baterias no eco do peito escuro. Uma ou duas vidas na mente em questão de segundos. Estavam a quatro curvas do destino. Acelerados fluxos de pulsação contínua. O chão rodava sob pés de concreto. O resto do foco era imagem borrada. Estavam a dois palitos do estopim. Quase suores escorriam disfarçadamente pelas mãos. O silêncio grave do vácuo entre os corpos. Sirenes soavam de trilha sonora. Estavam a um beijo de mudar tudo.

11 Fevereiro 2008

Mémoires

Ainda gosto de dançar, bom dia, como vai você?

09 Fevereiro 2008

A Solidão e a Província

- Deve ser foda mesmo, fazer um som novo e não ter para quem mostrar...

15 Janeiro 2008

What about now, Joseph?

O que se faz, ao sem querer, machucar um anjo?

Luto

Perdi metade de mim
por minha culpa
Para da outra metade
sair inteiro

04 Janeiro 2008

Reveillon

Suma como o cheiro do perfume colocado pela manhã, como lembranças de verões de infância. Desapareça como a sensação de um abraço forte, quando a distância já não dá mais visão para o adeus. Suma tal qual as águas na estiagem, tragadas pelo solo seco. Deixe-se ir como a vida se esvai, um pouco por dia, desde o nascimento. Perca-se na memória, limite-se ao esquecimento, consuma-se em sumidouros. Vaze com maré minguante, e não retorne com Saturno.

11 Dezembro 2007

A Solidão e a Cidade

Começo este texto com um assassinato. Estou oficialmente matando o título de um romance que pretendia escrever um dia, mesmo que não seja nem original, nem meu este título. Chegou o tempo de encarar os fatos, não iria escrevê-lo mesmo. De qualquer modo acho que tudo o que diria cabe em poucas linhas neste espaço. Talvez não, talvez este romance fosse maior que tudo o que se esconde por trás de milhões de páginas da internet. O cigarro apagou. Reascendo, como as fumaças que sobem sobre meus olhos, tomo mais um gole de cerveja, e espero fazer efeito. No escuro, que também espero fazer efeito. Gosto de chegar em casa, quando sozinho, e não acender nenhuma luz, curtir o breu. O breu insinua, antes de revelar, como as mulheres de Almodóvar. Um pouco exageradas, concordo. Mas uma mulher que não exagera é apenas uma fêmea. Transformar erros em charme, meu caro Wilde, é somente para as que transcendem, naturalmente. O som do Sa Grama também transcende, merecia algo em vinil. Um Brasil elegante, um Brasil deflagrante, um Brasil do Norte. Som descritivo, para escrever. Tentar experiências novas, o texto que há tempos gesto. Ainda não tinha a Cidade cravada na carne o suficiente para deitar em palavras, e tampouco me charlava a Solidão. Fosse na Província, e teria resolvido tudo rapidamente hoje, sem pressa ou desespero, com dois telefonemas. Amigos que fazem alguma diferença sempre sabem acolher os insólitos, por semelhança ou caridade. Mais um gole de cerveja, parece que aumenta o calor. Solidão a dois é menos solidão? Gosto de contraposições de idéias, de corpos, copos e esperanças. No fundo é isso, a ressaca da alma. A promessa de que algo vai mudar radicalmente amanhã. Faríamos hinos para celebrar, canções que eternizam. Na volta para casa um leve lampejo, sozinho no carro. Mas já seria tarde para algo dramático, o sono imperaria, inapelavelmente. Mas aqui, na Cidade, os recursos são muitos e as alternativas raras. A Solidão é maior quanto maior a vontade de se estar com alguém. Mas isso tornaria impossível sentir-se assim na multidão, o que, convenhamos, acontece. Saí sozinho nos dois dias do final de semana e até que me sou uma boa companhia. A noite conheci uma guria que eu já conhecia, eu acho, me lembrou de Dama da Noite, do Caio Fernando Abreu, que, descobri, já teve uma porrada de montagens país afora. Nenhuma com nossa sonoplastia. Talvez a música fluísse mais na Província. A Cidade não é muito musical. Na volta a pé para casa o primeiro gole de cerveja, ao som de Estación Esperanza, dos venezuelanos do Mixtura. A música que me apareceu quando precisava ouví-la. As músicas, assim como as pessoas, acontecem na nossa vida, ao que tudo indica, seguindo uma lógica escalafobética. Há um tiozinho sentado em uma cadeira na calçada, na frente de sua casa funda, com luz amarela. Maneira brasileira de se refrescar ou tédio pós-trabalho? Estamos todos no mesmo barco, e la nave va. Deixo a música fazer efeito. Lembrei do Morrisey, dizendo que suas músicas não eram melancólicas, contra todas as opiniões alheias. A idéia pesava em meus ombros, mas não pedi menos peso, e sim ombros mais fortes. Matei um romance. Mais três cervejas antes de chegar em casa. Dois cigarros para chegar aqui no texto. Duvido que alguém vá ler até o final, mas não importa, ele, como esse universo criado da espera, já terá cumprido seu papel, me apresentando a Companhia. Quem sabe o tema do meu próximo romance?

04 Dezembro 2007

Ligações Perdidas

- Uma chamada não atendida acabou com meu domingo...

A festa do cabelo no ralo

Três mulheres na minha casa.

26 Novembro 2007

Hell hath no fury...

Em São Paulo, assim como na guerra, é bom esperar barulho depois de pisar numa mina.

19 Novembro 2007

O jogo

Sempre me impressionou a habilidade de algumas pessoas em criar piadas e jogos. Pensando nisso, após muitos anos, e a muito custo, desenvolvi finalmente um jogo. Pode ser jogado sozinho, tem apenas uma regra, explícita no nome: Reclamou, perdeu.

É simples, fácil, e pode ser jogado em qualquer lugar, por qualquer um, a qualquer hora. Criei táticas que facilitam a assimilação, apesar da experiência deste jogo ser essencialmente individual, e seu maior adversário ser você mesmo. O método consiste em acordar de manhã e se propor o desafio de não reclamar, de nada, em nenhum momento do dia, independente do motivo.

Reclamou, perdeu.

Até hoje só consegui ganhar uma vez, por sorte, em um dia afônico.

PS: Estou desenvolvendo a evolução deste, chamado de Reclamou, perdeu Total, no qual nem pensamento vale. Mas duvido que alguém de fora do Tibet ganharia uma vez que seja.

Acapulco daqui a pouco

Vinte minutos após a decolagem:
- Quieres algo más, señor?
- Aeromoças mais gatas, se possível.
- Como?
- Jugo de naranja sin hielo, por favor.

12 Novembro 2007

Animal Futebol?

Entre a exuberância e a técnica, qual você escolhe? Essa pergunta singela esconde uma complexidade tamanha, que ainda não consegui uma resposta convincente. Resume, em si, uma das maiores contradições que nossa vã filosofia pode atingir.

Aplicando-a ao bom e velho esporte bretão, escolha: um time que dá espetáculo, levanta a galera, e joga bonito, mas não é tão eficiente, ou um time que não joga bonito, mas ganha tudo, nem que seja por um a zero?

Há influências históricas na questão, e creio que hoje a maioria apontaria a eficiência, pelo simples fato que o objetivo maior (o campeonato) é o que interessa no fim das contas. Mas há aqueles que acreditam que é mais gostoso ver seu time perder um campeonato dando show, a sagrar-se campeão jogando um futebol mecânico.

É possível fazer analogias diversas, pois a questão é, no fundo, uma metáfora da vida. Já vi, inclusive, colegas comparando loiras e morenas sob esta ótica, com resultados que contradizem suas predileções futebolísticas.

A melhor comparação veio, inesperadamente, da colega do divã, que acha mais legal a expectativa da torcida no estádio, o lamento do Uhhhh! geral quando a bola passa rente à trave, ao grito eufórico e definitivo do gol. Ou seja: o uhh! é o sexo tântrico, e o gooool! é a ejaculação.

E aí, qual você escolhe?

24 Outubro 2007

Enquete

- Tio, quem tem a melhor mira do mundo?
- É a gravidade.
- A gravidade?
- É. Toda vez que você cospe pro alto, cai rigorsamente no meio da sua testa.

15 Outubro 2007

Manual prático da sobrevivência inútil

Não desça do salto, mantenha a guarda, evite conselhos. Não acuse o golpe, mantenha a calma, jamais se renda. Cause indiferença, seja indiferente, afinal, o silêncio é a pior crítica. Não se aproxime, nunca perca nem vacile. Use o escárnio como arma e o cinismo para defesa. Salive veneno. Seja incapaz de sentir, mantenha distância, respeite o respeito. Não pise na grama, não cuspa pro alto, na dúvida omita. Lave suas mãos, ponha as barbas de molho, ataque sorrindo.

03 Outubro 2007

Pósliminares

Meu peito clama
seu ouvido atento
máquina do tempo
pulsa fluxo-segundos
enquanto lentamente
adormecemos

14 Setembro 2007

Free the man

Achar que o mundo é plano é, no mínimo, um pensamento chato!

Missiva

- Só lembro que ele terminou a carta com “estou numa fase Djavan braba... e isso não pode ser bom sinal...”

11 Setembro 2007

Sem anos de solidão

Muitos anos depois, defronte a um palco em Las Vegas, a senhora Mandrake haveria de se arrepender daquela tarde remota em que ralhou com seu filho gritando "Cresça e desapareça"!

27 Agosto 2007

en passant pour ton monde

Queria não te querer
mas te quero
Entro em ebulição
enquanto te espero
Sinto duas vezes o mesmo sabor
doce amargo da distância
Permaneço na inconstância,
às vezes tudo, às vezes nada
De passagem pelos seus dedos
Sou rio peixe água em movimento
o seu calor, meu alimento
intermitente presença da falta

24 Agosto 2007

SeeManCool Tea

A graça do ridículo está na inocência.

20 Agosto 2007

L'ombelico del mondo

Quando se está no olho do furacão, tudo o que você pode fazer, é nada.

23 Julho 2007

Cinco motivos para não ter orkut

Já discorri aqui sobre o assunto, mas, como não agüento mais ter que explicar isso em conversas em bares e afins, retomo, desta vez em definitivo:

1 - Farei um raciocínio inverso, refutando o principal motivo que as pessoas, alegremente, mencionam como a principal função do orkut: "Encontrar amigos que você não via há anos."

Esse motivo, por si só, já é contraditório, uma vez que amigos que não se vêem há anos são, no máximo, ex-colegas de escola/faculdade/clube ou qualquer outra coisa que você fazia antes, mas não faz mais. Amigos, no meu entender, sabem como e onde você está, ainda que não tenham falado contigo por um certo tempo. Amigo é quem importa, e se a pessoa sumiu da sua vida durante tanto tempo, bem ... considere que deve haver um bom motivo para isso.

2 - O orkut é a institucionalização da fofoca. É o que a maioria esmagadora dos usuários faz diuturnamente. E eu estou preocupado demais com a minha vida para ficar fuxicando a vida dos outros. Fu-xi-can-do sim! Pelo menos tenha a dignidade de assumir que você é fofoqueiro(a), que fica menos feio.

3 - Ninguém fala a verdade no orkut. E poucas pessoas dão a mínima para o que você gosta, faz, visita, come, ouve e mente que lê.

4 - "É possível conseguir um emprego pelo orkut." Isso é parcialmente verdade, mas se te recrutaram analisando as comunidades mentirosas que você diz participar, desconfie do emprego e do empregador. Os "head-hunters" estão acostumados a ouvir mentiras, (como "meu defeito é ser perfeccionista") e tal, mas contratar um cara que não tem nenhuma comunidade francamente desfavorável em seu orkut é acreditar que todos são perfeitos e felizes, adoram cinema europeu e literatura russa, e falam três línguas fluente mente. Ou o contratante é burro e cínico (pouco provável), ou o emprego é roubada (muuito provável).

5 - As declarações e descrições deixadas como depoimentos e scraps, demonstram, além do pouco domínio de português dos seus "amigos", que o que importa é o que se diz e não o que se faz. Quer fazer um teste? Ligue para o primeiro que você escolheu como depoente do vexatório "about me", e peça dez mil emprestado, para ontem. Se ele te emprestar, me apresente, que eu quero adicioná-lo!

Sobre a burrice congênita

Porque, em dias de chuva, todos os idiotas com guarda-chuva andam debaixo das marquises?

16 Julho 2007

Zurda

Os sapatos, assim como os amigos e o caráter das pessoas, nós só conhecemos quando a coisa aperta.

13 Julho 2007

É nóis

Frase que ouvi de uma garota que falava ao celular, em um ônibus de São Paulo, numa noite dessas:

- Pode deixar, que eu não sou honesta, mas sou de confiança.... Sou brasileira, né? (risos)

03 Julho 2007

Sob o sol sem Suite Morphine

Só escrevi para te lembrar que há um dia, lá fora. E mesmo que não o cantemos, ele encanta.

21 Junho 2007

Naif

No jantar de uma família espírita, Juninho, 6 anos, emburrado por não poder mais assistir desenhos animados, lança, no meio da discussão, a clássica:
- Eu não pedi para nascer!
O pai, sereno, explica:
- Não só pediu para nascer, como escolheu essa família.
Juninho pensa um pouco, e arremata:
- Então eu devia ser o último da fila!

15 Junho 2007

Reveille-matin

Sinto o farfalhar lento de seus cabelos em meu peito, sua respiração leve de sono de criança. Aguardo seu acordar suave, ouço indistintamente sons de seus sonhos. Roubo em silêncio seu lençol, para admirar, de canto dos olhos, seu corpo moreno. Desligo o telefone, ignoro os jornais, peço pudor aos passarinhos. Adormecida, a bela só pode se levantar com beijos. Assustada, pensa estar atrasada para o trabalho, e se arruma rápido, enquanto mergulho em seu travesseiro, e não aviso que é domingo.

14 Junho 2007

F comme Femme

Três considerações sobre o tema:

- Mesmo nuas, as mulheres jamais estão despidas de seus segredos.

- Um milhão de propósitos em um só ser.

- Nunca, eu disse NUNCA duvide de uma mulher com um motivo.

05 Junho 2007

Coletiva Terra

Gosto da escrita tímida, poesia recolhida e discreta. Aos adolescentes e escritores falidos a pose para escrever, no meio de festas, ou num café com chapéu de tafetá. Prefiro o anônimo, sacar sutilmente um caderno de notas e pinçar frases soltas para este solilóquio espaço. Imagem não é nada se não imaginada. Fotos de felicidade falsa figurando no orkut fazem pouco sentido. A crise da pós-modernidade nunca foi de forma, mas sim de conteúdo. A forma é basicamente a mesma desde os gregos. O recheio da matéria, espírito, idéias, leis ou lingüiças é que desafia. Não posso ser definido em uma frase, e ainda que o fosse, não seria definitiva. A escrita é para poucos, miolo que palpita em peito escancarado. Não sou o que como, assisto, leio, pratico, ouço. Sou isso mais acima de tudo, escrevo. Tímido, recolhido e discreto, caneta tinta e papel meio ao mar. Pouco importa se não me ouvem, para as pedras o apanhador é indiferente. E se o comentário é o aplauso do blogue, vou de Newton, falando às salas vazias, grão de areia pregando ao deserto. Meu registrar impreciso não precisa de adições, é aditivo por si. Escrevo pelo vício de atirar ao espelho cacos de meus reflexos. Espero em troca, angústia do desconhecido, um pouco de melancolia, e silêncio. Não dou mais rasteiras desde que aprendi a apanhar. Aguardo dias de sol que derretem neve, comemoro pequenas vitórias. Respiro fundo depois da chuva, procuro estrelas em poças d'água. Viver é igual a escrever, começa em você e pára no mundo.

25 Maio 2007

Soul

No frio, irradio
na luz, fico cego
na enchente, esvazio
no verão, hiberno

21 Maio 2007

Indigna

- Chomp, chomp, chomp...
- Hey, o que você está comendo?
- Chandelle.
- Fale comigo quando você estiver falando comigo!
- Mas eu estou falando contigo!
- Não você tá comendo!
- Mas tô falando contigo. Tá bom, o que você quer que eu fale?
- Sei lá, qualquer coisa. O que você está pensando agora?
- Que chandelle é quase melhor do que você...
- O QUÊ??
- Calma, eu disse quase.
- Vá se f*!!
- Ficou brava por isso?
- Claro! Ainda se fosse nutella...

15 Maio 2007

A vida é doce

Como todo bom chocólatra, tenho fases. Lembro que a primeira foi Surpresa. Tive uma breve Aerado, rapidamente descontinuada. Houve ainda a fase Charge, quando em crescimento. Há as recorrentes, como a Bis, e Prestígio, que de vez em quando volta, mas atualmente está em baixa. Mais recentemente a Sensação, que ainda bem foi passageira. Uma fase Batom, que marcou minha adolescência. Para a Diamante Negro cheguei até a inventar o slogan "Mastigue prazer". A Dois Amores foi particularmente longa. Seguiu-se a uma majoritária fase Brigadeiro, que como diz o Doidão, "é o exagero do chocolate". Não existe exagero em chocolate, assim como não faz sentido a expressão "chocolate demais". Na busca por qualidade ao invés de quantidade, reflexo de um amadurecimento talvez, ou simples enjôo, fui aos que têm mais substância, e me encontro Amaro atualmente.

14 Maio 2007

Hora do Choro

Na Cidade Nova, não era o Carrasco que comandava a baixaria.

11 Maio 2007

Admirável gado novo

E as estátuas de terno permanecem impassíveis frente ao mar de inutilidades ditas com ares de powerpoint.

05 Maio 2007

Crônicas de um tornado

Não quero ser o algoz dos seus sonhos, tampouco o semeador de desilusões. Não serei falso profeta de apocalipses futuros. Quero ser como a brisa ligeira, brejeira, que sopra as boas novas ao pé do ouvido. Vento da tarde espreguiçado na varanda, domingo de sol na praia. Sem contra-tempos ou muitos planos. Sem saber que amanhã, e por que ontem. Sem rimas nem soluções. Quero vir como um pensamento bom inesperado, às três da tarde de uma quinta-feira. Refletir o brilho borrado de olhos visitantes. Lutar contra a tirania dos momentos sórdidos, viver cada minuto no compasso dos beija-flores. Não direi realidades, não passarei seu passado. Nem nunca pedirei calma, nem trégua nem nada. Quero ser livre, livro lido e guardado no peito. Ser sempre, mas só de vez em quando.

02 Maio 2007

Porque Você

Porque Eu.

Chorar é chantagem

O argumento da lágrima é imbatível. Mas covarde.

23 Abril 2007

Bugado

Pedro Manuel era programador e tinha uma moto. Ouvia heavy metal e tinha uma noiva do interior. Gostava de esportes radicais e tinha uma carreira. Lia histórias em quadrinhos e tinha planos. Via passarem os anos e tinha um problema. Um dia o sistema falhou.


Às vezes o sistema falha;

18 Abril 2007

FloriSpa

A vista da minha área de serviço estranhamente se parece com a vista do morro de Floripa. Substitua-se o mar pela neblina no horizonte (em princípio ambos se igualam), acrescentando um pouco mais de estrelas em cada luz pincelada impressionista no retalho da noite. O barulho das ondas não deixa de ser equivalente às vagas de carros, sirenes, caminhões e afins.

Também aqui não deixamos de ser manés, nem de ser ilhas.

Experimental e tal

Com o braço do cigarro cruzado sobre o peito, apoiando o cotovelo do braço do café, o diretor pára o ensaio, gritando que toda aquela cena estava muito típica!

09 Abril 2007

Comme il faut

- Porque você não escreve mais sobre mim no blog?
- Já te falei mil vezes que não adianta pedir, que os textos tem que vir naturalmente, sem forçar nada.... mas porque você ainda insiste?
-Porque estou carente literalmente!

04 Abril 2007

Lalluva

Abraços sôfregos na lavanderia, a chuva serenava discordando da urgência juvenil. Ele pediu uma prova de amor, ela hesitou. Muitas águas rolaram quando anos depois ela conta para sua filha. O tempo escorreu vida adentro. Lágrimas verteram por fora. A roda do moinho gira o mundo sem sair do lugar. No oceano do sentir, mergulhe, ela disse. Águas passadas.

27 Março 2007

Momento Zero

Não vou desistir porque fazer isso seria dar razão a todos aqueles que apostaram contra mim.

E eles tem que estar errados em pelo menos uma coisa...

23 Março 2007

Hojas

O banheiro é o horário nobre da leitura.

21 Março 2007

Errar é preciso

Se errar é humano, repetir é burrice, como é que se chama aquilo que fazemos pela terceira vez?

Duas histórias sobre acertos e erros:

Thomas Edison tentou duas mil vezes antes de conseguir fazer um filamento de bambu ficar incandescente dentro de um bulbo em semi-vácuo, inventando assim a lâmpada. Quando certa vez lhe disseram que ele havia fracassado duas mil vezes, ele respondeu:
- Eu não falhei todas essas vezes, só descobri duas mil maneiras de não se fazer uma lâmpada!

No crescer da Alemanha nazista, uma das preocupações era descreditar a “ciência judaica”. O principal alvo era Einstein e sua teoria da relatividade. Quando informado da publicação de um livro intitulado 100 authors against Einstein (Cem autores contra Einstein), ele respondeu: “Por que cem? Se eu estivesse errado, um teria sido suficiente”.

* Histórias retiradas, respectivamente, do péssimo filme “A lenda do tesouro perdido” e do livro “O universo numa casca de noz”, de Stephen Hawking.

17 Março 2007

Dia de clássico

Na cozinha, duas da manhã, a corintiana bradava, vociferava animalescamente para ele:
- Você não é fiel!
O são paulino, sarcástico:
- Não, sou independente!

Mal fechou a porta e os pratos explodiram em suas costas.

15 Março 2007

Nunca diga eu te amo 2

- Porque eu te acho simplesmente o máximo!

13 Março 2007

Nova Cosmopolitan

Voltavam para o escritório após o almoço, conversando banalidades digestivas, quando a cordenadora revela:

- Não sei se faço pós ou tenho um filho.

01 Março 2007

Coisas que só aprendemos quando vivemos sozinhos

- A importância daquele telefonema

- Viajar pra dentro

- A palavra certa nas dificuldades

- Levantar-se

- Como sair do labirinto dos próprios devaneios

- Ouvir o silêncio

26 Fevereiro 2007

Restos para viagem

- Com licença, satisfeito?
- Não, não estou nada satisfeito! Queria um país mais justo, com menos desigualdade social, políticos mais honestos, cidadãos mais conscientes, mais educação e menos violência, queria que imbecis com microfone e câmera desparecessem da tevê, menos entretenimento cretino e de baixo calão, mais saúde, menos irresponsabilidade, mais compreensão, mais esportes, menos lixo cultural importado, mais discussões pertinentes, menos BBB, mais jornais independentes, menos mídia cooptada, mais conteúdo e menos forma, mais rodas de assuntos interessantes, menos gente falando só de trabalho, mais vida e verde, menos poluição, enfim.... aí talvez eu ficasse satisfeito, ok?
- Tá certo, senhor. Mas... posso recolher os pratos?
- Pode. Mas espera.

12 Fevereiro 2007

Conselhos vários para um futuro filho

- Tudo é energia.

- Só os diamantes são eternos.

- Não existe gol feio. Feio é não fazer gol.

- Sempre amarre os cadarços antes de entrar em um banheiro público.

- Nunca, eu disse NUNCA invada a Rússia no inverno.

02 Fevereiro 2007

La metà di niente

Marcela só queria chegar em casa mais cedo, só desta vez. A rotina canhestra não perdoou a sexta-feira. Pelo contrário, parece que tudo de ruim acontece na sexta, depois das cinco. E haja saco para ficar no escritório. Sair moída às oito da noite matou o cinema, o happy hour, e o começo da novela. Tinha um pacote de bisnaguinhas e um filme pela metade como companhia. O namorado no interior que esperasse, hoje ela não iria ligar.

O som da chave entrando na porta parecia um alívio. Gostava de chegar com o apartamento vazio, não acender nenhuma luz, e perambular pelo escuro, arrumando pequenas coisas inúteis, como um fantasma assombrando a própria casa. Fumou um cigarro no breu da área de serviço, estranhamente a melhor vista do apartamento. Regou as plantas, recolheu a roupa do varal. O telefone tocou. Atendeu ainda um pouco zangada, saco, ele que ligasse amanhã. Era a sua mãe. Ligou para reclamar do pai, que, ora só veja você, deu para ter amantes depois de velho. Quando tudo estava sossegando, veio o viagra, esse ingrato. Ainda vendem o remédio como a alegria da terceira idade. Só se fosse para os homens, porque menopausa não é brincadeira. Marcela ouvia tudo ausente, pontuando o relato com ahãs e não digas.

Marcela já havia lavado toda a louça, arrumado a cama e ajeitado todos os livros da estante, quando se lembrou que havia uns vinte minutos que ela não dizia algo para concordar com a mãe, prestou atenção na frase que dona Alvira (esse era o nome pelo qual chamava sua mãe depois de adulta) quase chorava ao telefone:
- Essa não é a vida que eu sonhei para mim. Depois que as crianças foram embora (as crianças eram Marcela e Adriano, que já haviam saído de casa faz quinze anos), a casa ficou vazia. Seu pai deu para beber e jogar no clube com os amigos, e agora vem com essas de amante. Essa não é a vida que eu sonhei para mim, eu iria ser executiva, tinha toda uma carreira pela frente, passei no concurso da Caixa, eu tinha um sonho!
Marcela, com o saco explodido, interrompe a choradeira materna para falar pela primeira vez em quarenta minutos de conversa:
- Mas mãe, o que você fez pelo seu sonho hoje?

31 Janeiro 2007

Porque hoje é sábado

Comprei uma escova de dentes que vibra. Porque é maneira. Fui ao cinema ver um filme mandrake sobre um piá que cavalga um dragão. Porquê? Porque é maneiro.

Contra a lógica da sustentação das necessidades criadas pelo mercado, e da reprodução incessante dos mecanismos capitalistas que aprisionam o homem e adiam a revolução, só há um argumento: o maneiro.

Em nenhum dos dois casos fui diretamente comprado pelas propagandas. Não acho que a vibrante escove melhor, nem foi o trailer o que me convenceu. Foi a idéia. Uma escova que vibra é uma idéia maneira. Cavalgar um dragão é uma idéia maneira.

O maneiro, como motivo, está presente em diversas escalas, em diferentes manifestações humanas. Um exemplo? O Jorge Ben (não o Benjor, da guitarra) cantava, nos idos da década de 60, um "voXê", com o som de xis mesmo, no lugar do cê. Porquê?
Porque era maneiro.

Se voxê não entende isso, vá procurar uma razão filosófica, um causa primeira, uma ação originária, um fato social que justifique.

Hoje é terça-feira. E se voxê não entendeu o porquê do título deste texto, além de não ser maneiro, voxê precisa ler mais poesia. Porque estou cansado de perder esta piada.

22 Janeiro 2007

Fe-li-ci-tà

Jamiroquai pro rolê; cueca sem costura; leite condensado na latinha; frio de manhã; segurar a tua mão; acordar sem querer; tudo o que eu faria em Paris; sal de montão; Chovendo na roseira; quadrinhos da Ilustrada no banheiro; terminar aquele som; elegância sui generis; delicadezas femininas; almoço de domingo; mensagens no meio do dia; achar que tudo vai dar certo; Júpiter na sua casa; chocolate sem culpa; ela querendo que eu me vista melhor; não me vestir melhor; brigadeiro de panela; parque vazio no fim de tarde; enjoar de dormir; segurar a tua mão; Jamiroquai pro rolé.

18 Janeiro 2007

Babylon by bus

Assim como as bailarinas reconhecem suas pares só pela postura, é fácil reconhecer um paulistano pelo seu modo de andar. Parafraseando o Ferréz, ninguém anda folgado em São Paulo. Basta perceber os ombros ligeiramente encolhidos, o olhar basculante e o andar ligeiro. Pequenos passos rápidos e compassados. Flanar em São Paulo significa perder o metrô, o ônibus, ser assaltado, ou simplesmente levar bronca do de alguma quadrilha criminosa que manda oficialmente na cidade.... ah, tem também a outra quadrilha, que fica nos presídios. Mas o governador afirmou que a população pode sair tranquila às ruas, pois o PCC liberou o banho de sol.

Andou folgado em SP, é turista, vacilão, ou os dois.

Outra curiosidade: as paulistanas não rebolam. Estranho, pois fisiológicamente as mulheres têm que rebolar para compensar uma maior abertura nos quadris, adaptação evolutiva para auxiliar a gravidez. As gajas daqui intensionalmente, ou inconscientemente, forçam seus movimentos para não rebolarem ao andar. Creditei inicialmente o fato à histórica falta de sensualidade da paulistana, sensualidade esta que abunda alhures, como no Rio ou no nordeste inteiro. Ok, os índices de natalidade não são menores aqui, o que me leva a crêr que elas compensem essa falta com charme, o que é verdade. Mas não posso deixar de lamentar esse bloqueio da energia sexual, que se concentra da região do abdômem para baixo, e que tanto inspira poetas, músicos e compositores.

Acho que é por isso que não existe samba em São Paulo.

15 Janeiro 2007

L' étranger

Am I a foreingner in my own(?) town?

09 Janeiro 2007

Viagem ao interior do Brasil 4 - Dom Camilo

Na pequena cidade do litoral maranhense o padre visita seu amigo pastor, que convalesce de uma grave doença. Casado recentemente, com mulher e dois filhos pequenos, o pastor recebe o padre em seu quarto escuro, onde passa os dias febril, a girar na cama.
O padre se aproxima do ouvido do amigo, e sussurra uma frase que, conta o pastor, o fez melhorar na hora:
- Morre não pastor, que a viúva é nova e o padre está na área.


(...)

Parece Dias Gomes, mas o padre, além de mandar na cidade, tem duas filhas, reconhecidas.

Ar puro

O primeiro sorriso
de um coração cicatrizado

02 Janeiro 2007

Confissão Aliterática

No sul eu não suo.

29 Dezembro 2006

Lady sings the blues

Quero nossas silhuetas no espelho, quero tirar sarro da sua brabeza, te provocar até você perder a a pose de séria, quero te provar que você ainda tem vinte e poucos anos e que o mundo conspira em nosso favor.

27 Dezembro 2006

Viagem ao interior do Brasil 3 - Crônicas Maranhenses

Ponte das pedrinhas é o nome de uma pequena praça perdida no centro de São Luis. Antigamente a região não estava lotada de camelôs, e alguns casais a utilizavam como refúgio para namoros. O único problema é que não era permitido beijar.

Hoje o visual não ajuda o romance, e a trilha sonora é brega. Sério, os do sul não imaginamos o fenômeno do Brega, que aqui é chamado de Seresta. Cantores como Adelino Nascimento e Silvano Sales fazem um sucesso enorme com letras meladas e um som de teclado que parece brincadeira de criança. Já foi dito, mas aqui é evidente: o Brega é Pop. Todas as classes, todas as raças, todos ouvem.

O som típico do Maranhão é o reggae. Mas não os do Bob Marley (os únicos dignos, diga-se de passagem). O Sunsplash Reggae Festival, que acontece anualmente na Jamaica, é acompanhado de perto. Eles confundem reggae com ragga, que é um reggae eletrônico, e ouvem sempre, sempre, no último volume, mesmo que a distorção provocada pelo excesso de som desfigure a música. Há clubes de reggae, que aqui se dança junto, dois a dois.

O camarão e o caranguejo são vendidos a preço de banana, mas a moda culinária é o espaguete.

Pensamentos furtados e furtivos

A medo é o freio de mão da vida

A dúvida é o atestado de sanidade da existência

Você sai de dentro da sua mãe, mas sua mãe nunca sai de dentro de você.

24 Dezembro 2006

Le pêcheur de coquillages

Solto e descompromissado pela orla, procuro sinais, indicações, ou apenas um pouco de paz mental. Reorganizar os arquivos, defragmentar pensamentos, formatar tudo para o ano que nasce. Os ensinamentos estão em qualquer lugar, basta saber olhar.

Em uma época ruim, caminhava molhando os pés, e pensava em desistir. Procurava saídas, sempre na praia. Ainda não sei se a imensidão do mar torna a solidão maior ou menor. Pelo menos ela acompanha a solidão. Dois sozinhos valem uma companhia.
Uma gaivota correu um pouco e levantou vôo. A resposta.

Quando o vento está contra é que as gaivotas levantam vôo. E para voar, a primeira coisa a se fazer é levantar a cabeça.

Ergui a cabeça e fui. Outros ares, outras cidades. Migrar é preciso, volver no es preciso.

Só voltei a caminhar de cabeça baixa, na praia, para pescar conchinhas. Procurarava sinais, indicações, paz mental. Achei uma concha pequena, bem formada, discreta e com um inexplicável furo no meio. Era eu.
Passos adiante outra me chamou a atenção: branca, com uma borda escura, era bem formada e se destacava. Era você.

A resposta.

Somos feitos do mesmo material, vivemos no mesmo meio. Mas não somos iguais. Não somos pares, não nos encaixamos. De nada importa que o material seja exatamente o mesmo. Insistir no encaixe, somente pela semelhança, só irá quebrar as bordas. O núcleo duro continuará igual. Do mesmo cálcio, do mesmo mar. Mas diferentes.

21 Dezembro 2006

Viagem ao interior do Brasil 2 - Sinais

Bom Jesus da Mata, Maranhão. Mais conhecida como Cem, pois está exatamente a cem quilômetros de Imperatriz, segunda maior cidade do Estado. Os habitantes fazem trocadilhos, dizendo que a cidade é Cem futuro, Cem vergonha, Cem nada.
Em um posto com os banheiros irrepreensívelmente limpos (custaram R$ 38 mil, segundo o dono, um velhinho de bigode que já desacreditou da vida), dois meninos vacilam por ali. Lucas, o menorzinho, diz que joga bola melhor que Gustavo, que é quatro anos mais velho, corpo esguiou nos seus quatorze anos.

Gustavo conta que conhece Imperatriz, mas não São Luiz, a capital, a uns 500 quilômetros de Cem. Tem só uma hora de aula por dia, pois está em época de provas. A escola fica "quase dois quilômetros" estrada abaixo. Lucas, quando crescer, quer ser grande, e Gustavo, por perguntar muito, quer ser jornalista.

Estava eu com outro jornalista, maranhanse, que emigrou para São Paulo com a cara e a coragem. Gustavo não imaginava que éramos jornalistas. Gustavo não imaginava que ali, justamente ali, estavam duas pessoas que nunca duvidariam que ele conseguiria. Perguntei ao colega se ele achava que um menino pobre do interior do Maranhão poderia se tornar um grande jornalista. Ele sorriu, e disse que esperava apenas o New York Times.

Piegas ou não, demos para as crianças dois pacotes de bolacha, e um livro de contos do Guy de Maupassant, de propriedade do jornaleiro Schwartz, que seguramente concordaria com a doação, caso fosse consultado. Autografamos o livro, com destaque para a frase "Nunca desista de seus sonhos, Gustavo".

Coincidências à parte, lembrei de uma frase da Margareth Mead, que encontrei por coincidência em um livro da Arendt:

"Never doubt that a small group of thoughtful, committed citizens can change the world. Indeed, it is the only thing that ever has."

"Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos conscientes e engajados possa mudar o mundo. De fato, esta foi a única maneira de se conseguir isso até agora."

Viagem ao interior do Brasil

Viviane tem vinte anos e estuda o 2º período de Direito. Trabalha seis horas no período da tarde, em um posto de gasolina na beira da estrada em Paraíso do Tocantins - TO. Quer fazer concurso para juíza, promotora, ou "sei lá, se eu estiver viva ainda até lá". Conhece Imperatriz no Maranhão e Goiânia, em Goiás, e pensa em morar lá, ou talvez São Paulo. Namora um rapaz que é gerente de loja em Paraíso, mas não pensa em se casar.

Viviane tem um sorriso simpático e as unhas longas bem cuidadas e impecavelmente pintadas.

19 Dezembro 2006

Post nosso de cada dia

A Condição Humana me fez pensar em nossa existência. Logicamente não há um motivo para se ter filhos. Nenhum. Um mísero que seja. As pessoas têm filhos para tê-los somente, ponto. A lógica é implacável, seus sentimentos não. Podes imaginar mil motivos. Se pensares bem, verás que não é lógico.
Os blogues são como filhos. Ou melhor, os textos nos blogues são como filhos: vêm de você, tem um pouco de você, alguns são a sua cara. Mas no final têm vida própria, seguem seu próprio caminho. E, no fundo, você também não sabe bem para que servem. Não há um motivo lógico para blogues. Nenhum. Um mísero que seja.

PS: A melhor história que conheço sobre esse assunto veio do Shadow Lord, um amigo recém casado, e bastante espirituoso. Certa vez, conversando com ele e sua digníssima esposa, perguntei, babacamente, se eles pensavam em ter filhos. Ao ouvir que sim, insisti:
- Mas pense bem, com o fim dos combustíveis fósseis, choques de civilizações, guerras, e todo esse cenário macabro que se desenha em um futuro próximo, você ainda quer ter um filho?
E o sacana, olhando em meus olhos, responde, meio sério:
- E porque privar o mundo de ter outra pessoa como eu?

Ok, 1 x 0.

14 Dezembro 2006

Sexism in the city

Quando um seriado que reduz a meia dúzia de clichês rasos um ser tão rico quanto a mulher é chamado de feminista por nove entre dez amigas que o assistem, então acho que, como Freud, eu não entendo nada de mulher mesmo. E que, como o cocainômano austríaco, no final, tudo é sexo.

10 Dezembro 2006

Põe o dedo aqui

O desespero sempre chega com uma pequena pontada no esôfago. Sem avisar, nos lugares mais nada a ver. Quando você acabou de fechar um spam, subiu no ônibus, ou foi, finalmente, tomar um café no meio da tarde. Ele se manifesta com o mesmo modus operandi, e são nestes instantes que o fatídico, porém recorrente pensamento assalta sua mente: -"Putz, o que é que eu vou fazer agora?"
Ele se agiganta, toma conta dos dois hemisférios do seu cérebro, danificando não só a lógica, mas também a criatividade. Ou seja, além de não conseguir raciocinar direito, você também fica sem idéias para solucionar qualquer coisa. Como um ralo em espiral, tudo converge para o centro, que é cada vez mais distante, profundo e veloz.
A diferença entre a depressão e a síndrome do pânico é a agudez da pontada. Na primeira a estaca fica, como um espinho lascinando, e na segunda ela explode. A toda explosão se segue um clarão. O excesso de luz cega. Cegos tateiam ou ficam parados. Em qualquer um dos dois casos o caminho demora a aparecer. Sugestão: Espere passar o zunido no ouvido. Porque de cego, surdo e burro, já basta o amor. Que é apenas a depressão do lado avesso. A posologia é praticamente a mesma.

09 Dezembro 2006

Imperativos Borgianos

Como um exercício de prevenção contra o mal de Alzheimer resolvi catalogar minhas coleções utilizando novos critérios. A seção de livros seria subdivida nas categorias: Eu nunca tinha pensado nisso antes, com Focault e Arendt; Leio mas não conto para ninguém, com Paulo Coelho e Sidney Sheldon; Esse escreve só para mostrar que é foda, com Guimarães Rosa, Proust e Joyce; Autores para ler na beira do mar, com L. F. Veríssimo e, claro, Borges; Para ler domingo à tarde, Drummond e Quintana; Antes de dormir, Castañeda, Mafalda e Calvin; No banheiro, jornais e revistas diversas; No ônibus, Hobsbawn e Eco.

Apenas duas categorias para os discos: Para ouvir inteiro sem tirar de dentro, com Quarteto Novo, Maria Fumaça (Banda Black Rio), Emergency on planet earth (Jamiroquai), Oiapok Xui (Uakti), e com alguma vaselina, o Clube da esquina de 72 e o Sonho 70 (Gismonti). Na outra categoria estão Todos aqueles em que tenho que pular músicas.

07 Dezembro 2006

Nunca diga Eu te amo

Frase pichada em um canto qualquer de um coração abandonado:

"A vida é uma viagem, e você é meu caminho."

05 Dezembro 2006

Raison d'être

Era daquelas nordestinas arretadas. A família jantava, a tevê ligada no jornal. O noticiário comentava os estragos do tsunami, especialmente o caso do turista inglês que morreu na praia, de ataque cardíaco, ao ver a imensa onda que se aproximava. Olhos vidrados na tela, ela exclama:
- Eita homi froxo!

04 Dezembro 2006

Boys don't cry

O riso é social. Diversas pesquisas indicam que as pessoas riem mais quando estão próximas de outras pessoas. O riso é uma forma de se comunicar. Pode ser utilizado para se fazer notar, para concordar com outra pessoa, para se mostrar, ou simplesmente para fingir gostar da piada.
Já o choro não tem esse caráter sociabilizante. Mostrar sua tristeza aos outros não é de bom tom, não vai te ajudar a fazer amigos. Você acaba passando (e com razão) por aquele chato que fica despejando suas angústias no ouvido dos outros. Tem que ser muito amigo para aguentar alguém chorando as pitangas. Problemas cada um tem os seus. Amigos também. É nessas horas que se vê quem pipoca e quem aguenta.
Meninos não choram, homens sim. Homens choram escondidos, sozinhos. Não temos a empatia, social e genética, das mulheres, com suas amigas delicadas e acostumadas a esse tipo de manifestação. É meio esquisito dizer: - Ei, bróder, me empresta o ombro aí que eu preciso chorar. Não é assim que funciona. Você tem que se esconder, fingir pro mundo que é forte, que desbrava, que não titubeia, onde já se viu... deste tamanho e chorando feito uma criança... Um homem que chora assume o fracasso em dissimular emoções, o que deveria ser uma arte do gênero. Chorar, reclamar para a mãe, ou levar desaforo para casa não deveriam fazer parte do universo masculino. Por isso a beleza. Quando um homem chora, está não só assumindo sua falha, assumindo sua fragilidade, condição inata do ser humano. Quando um homem chora, sozinho, escondido, está fazendo a revolução.

29 Novembro 2006

Ela tem pernas maiores que o mundo

...

28 Novembro 2006

Legionários

Escrevo músicas sobre as mazelas da vida. Não tive escolha. Nasci no lado dos que tem duas mãos e o sentimento do mundo. Mãos invisíveis e realidades mitológicas não me fazem sentido. Estou com muitos e meu exército é de ferro de Itabira. Cazuza, Russo e Dylan estão comigo, e marchamos, olhar de Che pro horizonte, passos largos, motores de sonhos. Nossa armada atira flores de plástico que morrem. Rimos do perigo, criamos ilusões, choramos da vida. Sim, viver é bom nas curvas da estrada, mas o resto é mentira.

27 Novembro 2006

Procurando rostos no desembarque

Para aqueles que vivem sozinhos, difícil não é partir, mas chegar.

22 Novembro 2006

Gitana

Dois filhos de Netuno, sentados no mesmo banco, dos mesmos carros, de todas as épocas idas, se encontravam, mais uma vez:
- O legal dos piscianos é que você não precisa explicar o porquê da viagem. Quando você vai ver, eles já estão lá, de malas prontas, apressando a partida.
Ela responde, um tanto escaldada pelas muitas coincidências do zodíaco:
- É, mas cuidados com os aquarianos. Eles são os que fingem estar lá. Mas ficam no mesmo lugar. Sempre.

14 Novembro 2006

El mago de ojos tristes

Já foi tema de crônicas diversas, mas retomo, entretanto. Os apelidos no futebol. Estranhamente os brasileiros, tidos como altamente criativos, deixamos de nos referir aos nossos jogadores por apelidos. Pelé, Tostão, Garrincha, Diamante Negro, Caju, enfim, uma série de jogadores eram (e ficaram) conhecidos por seus apelidos, das mais diferentes orígens. Os apelidos começaram a sumir lentamente. Foram substituídos primeiramente por adjetivos pátrios como Baiano, Paulista, Pernambucano. Vem o primeiro nome, e na sequencia uma referência ao seu estado natal (ou nem isso, porque o Mineiro - atualmente o melhor volante do mundo - na verdade é gaúcho). Há inclusive o peculiar caso dos júnior. Há um para cada adjetivo pátrio anteriormente citado: (Júnior) Baiano, (Juninho) Paulista, e (Juninho) Pernambucano.
Depois dos adjetivos pátrios, veio a onda dos nomes compostos ou completos, com sobrenome: Mauro Silva, Diego Tardelli, Fábio Rochemback. E por último entrou, bisonhamente, a númerologia, determinando quantos enes e erres dobrados tem que ter o nome "de guerra" do jogador. O fato é que o apelido dá outra dimensão ao craque, e cria uma intimidade maior do que o banal nome-e-sobrenome, para ficar só nesta categoria. Imagine se o Pelé não se chamasse Pelé, e sim Edson Arantes... Faça o teste, e narre um golaço gritando efusivamente "Gooool... É do Edson Arantes....!!". Chega a soar ridículo. Não há como gritar com vontade.
Já nossos hermanos espanófonos são craques em dar apelidos. Talvez pela proximidade que o apelido indique, por se tratar, em último caso, de uma maneira mais carinhosa de se referir ao jogador, ou por qualquer outro motivo, o que interessa é que para eles o apelido não morreu. Enquanto alguns aqui tentam chamar o Ronaldo pelo estranho sobrenome "Nazário", para não confundir com o Ronaldinho (Gaúcho), na Espanha ele ficou inicialmente conhecido como "fenômeno", e atualmente é "el gordo", por razões óbvias. Devido ao seu grande porte físico, Júlio Batista é "la bestia", e Bebeto era conhecido no La Coruña por aquele que considero o apelido mais legal de todos os tempos, que combina perfeitamente não só fisicamente, mas com a maneira dele jogar: "El Colibri".
Mas os argentinos parecem ser os especialistas no quesito apelido. Lá quase todos os jogadores de destaque são referenciados pelos apelidos. Carlitos Teves é "el Apache", Mascherano é "el Chefito", Saviola é "el Conejo". A tradição se estende também às torcidas, ou "barras", que se chamam de "bostero" (Boca), "gallina" (River), "funebreros" (Chacarita), "cuervos" (San Lorenzo). Mas de todos daquelas bandas, o melhor apelido é do jogador Juan Riquelme, que é carinhosamente chamado de "el mago de ojos tristes", e mais conhecido por "el mago" simplesmente. Ele foi o camisa 10 da seleção argentina na última copa, o que não é pouco, se considerarmos que foi também a camisa do "el pibe d'or" (o garoto de ouro), ou seja, Maradona. A parte do mago vem dos passes mágicos que Riquelme inventa, da habilidade nos pés e da elegância em tirar jogadas da cartola. Os olhos tristes ficam por conta da aparência mesmo, já que ele tem os olhos um pouco caídos, que lhe dão um ar entristecido. Some-se a isso uma personalidade mais reservada, e tem-se que Riquelme, com seu apelido, é a síntese perfeita entre a percepção e o carinho da torcida, bem como de uma maneira elegante e contida de jogar futebol, característica do que há de melhor na Argentina e que, salvo engano, está morrendo com el mago.

09 Novembro 2006

Evidente

Pessoas especiais têm uma lógica diferente.
Estavam em um bar, no quinto chopp, lamentando a recente demissão, de ambos. Ele falava de remorsos e de tudo o que faria para se vingar. Ela olhava o teto, quando irrompeu:
- Ainda bem que eu estava de tênis quando fui demitida.

02 Novembro 2006

Lógica

Victoria`s Secret de Baunilha. Conheço muito bem o cheiro desse creme. Quase todas as mulheres de Curitiba usam. Entrei no elevador, reconheci na hora. Uma morena que carregava duas pequenas sacolas. No térreo subiu uma senhora com sua filha de uns 4 anos. Após alguns segundos, e andares, a menininha exclama, um tanto deslumbrada:
- Mãe, a mulher tem cheiro de bolo!

09 Outubro 2006

Todo o não dito sobre a ausência

Para você,

Não vou te dar o prazer de ouvir da minha boca. Não dessa. Nunca direi que você deixava minha vida menos mané, e que nossos constantes desencontros davam sentido a tudo isso. Que você deu abrigo às mil ilusões, e fez do tempo nosso calendário particular. Que eu precisava da sua idéia, do seu diálogo, se não como motivo da lida, ao menos como referência. Precisava da sua carência mascarando a minha, precisava do seu corpo desaquecendo o meu. Nunca te direi que acima de tudo sempre te escolhi, mesmo nas mais difíceis encruzilhadas. Não concordarei que titubear é humano, que também já estive lá. Não vou contar aos nossos não-filhos que nossas paixões se encontraram, que aconteceu naturalmente em um ritmo seguro, ainda que previsível. O fim sempre e nunca é previsível. Não vou te contar que domingo à tarde te penso, te preciso, te rotinizo. Nunca ouvirás de meus lábios que fomos sim felizes, ao nosso estranho modo de se encontrar na solidão. Não vou te dizer que retirei a Bahia dos meus roteiros, que repaginei os caminhos da minha vida, agora só. Não mais te cantarei que ainda moro nessa mesma rua, nem te perguntarei como vai você. Não revelarei que quero não querer te esquecer, mas que consigo. Nunca ouvirás de minha boca que todos os nossos quase futuros viraram passado. Não direi que foi covardia, que não pude me defender, que pensaste egoísta só no teu fim, no melhor para você. Fiquei às traças, com suas memórias e nossos planos. Não te confessarei que a maior covardia é não poder revidar, não poder devolver a dor, ao menos como forma de lembrar. Nem vou mencionar que só pensaste em você, e fizestes tudo do modo que te foi mais fácil, seguro e covarde. Não vou concordar que castelos que se contróem em anos se desmancham em segundos. Ainda seguro a bandeira do alto dos escombros. Olho só o horizonte, com o orgulho ferido mas a cabeça erguida. Sua vitória não foi completa se houve eu perdedor. Sua covardia não foi minha coragem, e nela nos igualamos, ainda que distantes. Não vou dizer que te perdôo, mesmo não querendo. Jamais te direi do universo negro que se abre em sua ausência. Do frio no peito que volta de repente, que me acorda diariamente. Não vou te dizer que foi covardia, mas que é a vida, e por isso é válida. Não vou te desejar que seja feliz, mesmo desejando. Não, esta carta eu não te envio, nem é para você. Dessa boca nada ouvirás. Nunca mais direi. Jamais.

Ass: Quase-Eu

03 Outubro 2006

Obviedades Voadoras Não Identificadas

Em vista do recente acidente de avião, lembrei de um questionamento importante que me fiz quando do 11 de setembro: as ligações telefônicas. Algum tempo depois do atentado, foram recuperadas as ligações telefônicas dos passageiros de um dos aviões, que já estava dominado. Enquanto o avião seguia seu rumo para um inexorável final, as pessoas infringiam as normas de segurança de vôo, e se utilizavam de seus celulares durante o percurso. Fico imaginando que o piloto tentou avisar aos passageiros da proibição, mas acho que poucos ali entendiam árabe.

Tragicomédias à parte (eu sei, a piada foi infame), chego ao ponto: Para quem você ligaria? A pergunta é mais do que pertinente, pois, no fundo, resume em um só momento grandes questões universais como "quem somos", "para onde iremos", e "qual o sentido da vida" (agora não é piada).

Em segundo lugar, uma vez decido para quem ligar, fica a igualmente importante consideração do que dizer. Numa enquete informal na hora do almoço, descobri que a maioria ligaria para a mãe, o que é até óbvio, mas não consegui desvelar o que as pessoas diriam. Frente a certeza da morte, o que é necessário deixar, ainda que em palavras? Quem e como se consola? Qual a diferença efetiva? O que você diria?

PS: Em meio a conversa, alguém contou que certa vez sobrevoara um furacão, de nome Vilma. Não pude deixar de notar que os furacões têm nome de gente, detalhe importante. Talvez seja uma forma de humanizar a tragédia, de personificar além da mãe natureza. Imagino se, ao invés de avisar que estavam sobrevoando o Vilma, o piloto afirmasse: -Srs passageiros, neste momento enfrentaremos turbulências pois estamos atravessando uma massa de ar incrívelmente densa, cujos diferenciais de temperatura a fazem se movimentar a centenas de kilômetros por hora, formando um aspecto cônico com alto poder de deslocamento.

É muito mais fácil encarar a Vilma.

PS2: Alguém, há muito tempo atrás, notou que a maioria dos furacões têm nome de mulher (Katrina, Ofélia, Vilma, Beta). Considerando a natureza e o fim dos furacões, não posso deixar de concordar que há uma certa justiça nisso.

02 Outubro 2006

Profissional

- Sabe o que é, chefe, eu estava pronto para sair, decidido mesmo.... mas aí minha cama me fez uma contra-proposta irrecusável...

28 Setembro 2006

Expresso do Oriente

Um dia você ainda vai chegar à sua casa
sentar no sofá, e perceber que está
tão sozinha
quanto eu
Mas aí já terá morrido a idéia
o conceito era o mais importante, o que
valia a pena
Perdida, você irá gritar:
-Hei, venha para cá, para minha nuvem!
Então será tarde
Já terei me desapaixonado

Já verei brilho em outros olhos
não mais chorarei lágrimas ao vento
não mais
não.

25 Setembro 2006

Desacontecidos

Ela vai se casar. Não comemorei no bar, mas lembrei da música do Caubi. A dor é relativa, subjetiva, e não sei mais o que. Impressionante nossa capacidade de entender coisas bregas na dor. De um fio de cabelo comprido a um paletó que abraça o vestido. Dois pólos. A mesma dor. Ela vai se casar. Não me mandou nenhuma carta, nenhuma desculpa, nenhum convite. A dor é solitária. Empatia é apenas uma palavra bonita para amigas de bar. Os pequenos passos de tudo que desaconteceu desde então. Não era ontem eu tinha dezoito anos. Ela vai se casar. Eu querendo dizer que ainda moro na mesma rua, que nem gosto mais dela, que vou bem, obrigado. Não perdi o jeito para dançar, mesmo não sabendo. No carnaval mítico dos dias, fantasiei que envelhecia. Ainda moro no mesmo corpo. Encaro a mesma pessoa no espelho, todos os dias de manhã. Todas as manhãs dos dias. Todas as manhas não me livraram. A sagacidade do Pessoa foi a tradução. No original era navigare necesse. Entre o preciso e o necessário há o hiato poético. Ela vai se casar. Será preciso ou necessário? Será tarde? Serei eu tarde? Anoiteço.

Lascia Perdere

Algumas pessoas se desfazem com uma desfaçatez impressionante!

06 Setembro 2006

Animal Eleitoral

Ao observar um determinado candidato à presidente do Brasil, não consigo deixar de pensar na expressão francesa "sympa comme une porte de prison", ou seja, "simpático como uma porta de cadeia".

30 Agosto 2006

Scapes

No meio do programara humorístico, ela, desavisada, comenta:
- Já pensou que se você tivesse nascido anão, não seria metade da pessoa que é hoje?

22 Agosto 2006

Late bloomers

- As curitibanas não envelhecem... elas ficam loiras.

16 Agosto 2006

Falando em livros

Em um dia moroso no escritório, daqueles em que o chefe está viajando e a moçada aproveita para puxar o freio de mão, o papo vai, o papo vem, e a conversa acaba chegando no pior emprego do mundo. No brainstorm cada um foi dando sua versão, sendo que alguns se destacaram como: gandula de pingue-pongue, chapeiro de lanchonete fuleira, manobrista de carrinho de supermercado. A eleição acabou quando alguém sugeriu camareira de motel. Decisão unânime. Hors concours.

Lembrei desta história, verídica, quando procurava alguns livros em sebos de São Paulo. Vi uma mulher chegando com uns sete ou oito livros novos. O livreiro olhou todos e ofereceu 25 reais pelo conjunto. A moça, que parecia já habituada ao procedimento, pediu 30, e acabou ganhando. Ok, nenhum dos livros era realmente interessante, e a jóia da coroa era "A arte da política" do ex-presidente e ex-sociólogo FHC, que, convenhamos, não chega a empolgar. Ademais, é um livro que está sendo distribuido gratuitamete para clientes de uma grande concessionária "Carro do Povo", ou Volkswagen no original em alemão. O que me marcou desta história toda foi pensar que o livreiro vê livros como uma mercadoria qualquer, como uma oportunidade de ganhos. Certo, não sou ingênuo para desconsiderar que o livro, há centênios, é um negócio. Mas ali, vendo na cara, tive pena do livreiro. Ele não vê os ganhos com uma poesia do Quintana, uma análise do Foucault, um conto do Rosa. Ele não vê Diadorim, a rua dos cataventos, uma história da loucura. Ele vê "déizão em cada um e eu ganho quase cem contos".

Camareira de motel é dose. Mas particularmente acho que livreiro é mais torturante.

Animal Literal

Comemoremos! Os brasileiros não lemos menos de um livro por ano, conforme prega o senso comum. Os brasileiros lemos em média 1,8 livro por ano! Agora é científico. Menos mal. Se a gente lesse menos de um livro por ano, aí sim eu ficaria preocupado...

PS: A coisa anda tão braba que estou comemorando até quando vejo as pessoas no ônibus lendo "O código da Vinci".

14 Agosto 2006

Sobretudo

Andando por sobre os cofres da Paulista, entre a pobreza e a lotação, o colega Júlio apontava:
- Para fazer o mal, para atirar lama, você tem que abaixar e pegar. Aí você também se sujou.

08 Agosto 2006

A fuga do salutar

Três conversavam na beira do lago quando viram alguma coisa mergulhar. O mais empolgado exclamou:
- Era uma tartaruga!
O segundo não concordou:
- Era um jabuti!
- Não, era uma tar-ta-ru-ga!
- Claro que não! Era um jabuti!
- Bem, acho que a gente nunca vai saber. Existem vários tipos de tartaruga, que são todas da mesma família: tem o jabuti, a tartaruga-marinha, o cágado...
- Cágado?
- É! Com o acento no primeiro a. É um tipo de tartaruga menor. E tem também o salutar, que minha tia disse que é bom pra fazer simpatia. Você dá um salutar para a criança que tem bronquite, e espera o salutar fugir, que ele leva a bronquite embora.
- Leva embora a bronquite?
- Leva! Minha tia disse que deu para uma neta dela, e quando o salutar fugiu, levou a bronquite embora!
- Duvido!
- Sério, isso acontece.
E, virando-se para o terceiro que havia ficado quieto até então, perguntou:
- E você, acha que é possível?
E o quieto respondeu pensativo.
- Não sei. Mas fico imaginando como é que foge um salutar...

31 Julho 2006

Chá para os fantasmas

Você sabe que a velhice está chegando quando começa realmente a se preocupar com queda de cabelos, ou quando percebe que se tornou um clone mal-feito de tudo o que você não gostava em seu pai.

Constatação

É, realmente, a humildade relativa do ar em Brasília é a mais baixa do país mesmo.

27 Julho 2006

Parola zitta

- Não sei se ela que mudou, ou se fui eu que só percebi agora que sempre foi assim.

25 Julho 2006

Animal Futebol 3

Para uma seleção que apresentou um futebol mínimo, ter o Dunga como técnico até que é um avanço.

19 Julho 2006

Office talks

Dentre as vicissitudes corporativas, a exacerbada anglofonia é a que mais lamento. Não sou um purista do português, e acho lógico que os jargões do ambiente de negócios devam seguir a língua da nação que domina o setor. E, convenhamos, nosso português brasileiro não deixa de ser uma corruptela do português de Portugal, que é uma corruptela do latim. Coincidentemente o latim era a língua de Roma, os EUA de dois mil anos atrás. Ou seja, nosso português hoje é o broken english de amanhã.
Digressões à parte, o excesso de expressões anglófonas que são chiques de serem ditas em uma reunião de negócios demonstra não só a falta de classe de nossa elite corporativa, mas também a baixo domínio da língua nativa que esta apresenta. Ok, esse problema não é só nosso, reconheço. Mas não deixo de enjoar ao ouvir um jovem “cabeça-de-planilha” (essa definição é do Nassif) apresentar work plans e chart flows nos business meetings por aí. Há expressões em inglês que não têm correlatas em português, como dumping. Ainda há outras que já foram inclusive dicionarizadas por aqui, como no caso de estartar e deletar. O fato é que é de bom tom, ou ao menos comum, “gastar” inglês em eventos corporativos. Feedbacks, outsources, building leadership e congêneres tendem a crescer e multiplicar. Então só me restam duas alternatives: ganhar a vida na flauta, ou morar numa ilha. Acho que vou ficar com as duas, definitively.

By the way, a ironia destas palavras desnecessárias é o mais interessante dessa história. Expressões inverídicas ou impossíveis são os exemplos clássicos, como por exemplo feedback positivo. Isso não existe. Existe sim o elogio, que é feito na frente de todo mundo. Quando o chefe te chama no cantinho, isso não é feedback, é fodback.

18 Julho 2006

Cidade Encruzilhada

Sentados na beira do morro, não paravam de planejar o futuro com suas canções.

10 Julho 2006

Os livros não são sinceros

Filosofando em vão, brisei em encontrar o problema do mundo. Descrobrir a sistemátiva do desencanto, algo empírico e transferível. Porque a desilusão é sensível, mas não é sensata. Em termos materiais e humanísticos estamos melhor que há três séculos atrás, por exemplo. Considerando-se que este "progresso" seja evidente, ao menos se colocado em perspectiva histórica, qual seria a origem do desconforto? Porque tantas pessoas frustradas, tantos achando que deveriam estar em outro lugar?
Voltando às seis da tarde em um ônibus lotado, tentava pescar algum daqueles sonos que duram até a minha estação. Fui atrapalhado por freadas e solavancos insistentes e pela conversa de duas moças ao meu lado. Não vi a cara delas, mas sei tudo sobre a proposta de emprego de uma das duas, que pareciam ser advogadas. Principalmente as vantagens financeiras do novo emprego, e o quanto ela ganharia a mais. Automaticamente pensei nas minhas contas, e no quanto eu precisaria ganhar a mais para fazer tudo o que quero. Neste instante, entre devaneios financeiros e a vontade de dormir, descobri: Retiraram a maravilha do mundo! O dinheiro passou a ser o grande catalizador de vontades, o grande motor da existência. Monetarizaram o sonho. Monetarizaram meu sono.
Não se vive mais por viver, por aproveitar a experiência única de fruir a existência dotado de uma certa racionalidade, temperada com algo de místico e um pouco de arte. Monetarizaram a arte. Precificaram os mitos. Precificamos nossos mitos. Nossa felicidade é um crediário nas casas Bahia, ou qualquer outra equivalente. Nossos sonhos têm valor definido, prazo, e se marcar, até fiador. Só seremos completos quando tivermos isso isso e aquilo, quando ganharmos tanto, quando pudermos viajar para tal lugar, e quando atingirmos o patamar x,y ou z.
A vida não é mais uma experiência por si. Somos um improbabilidade matemática, um casual grão de areia na poeira cósmica e infinita do universo. Mas não nos maravilhemos com os fatos. Não fiquemos pasmados por saber que, na real, ninguém tem a mínima idéia do que estamos fazendo aqui, além de morrer um pouco desde o dia que nascemos. Isso não importa. O que importa é que talvez possamos pagar no crediário em seis vezes sem juros, com desconto em folha, um beija-flor de entrada, e a prímeira parcela só no ano que vem.

08 Julho 2006

Manifesto dos Orgasmos

Não traduzi o texto em francês do conto anterior por capenguice de minha francofonia, não por esnobismo. Como alguns já sabem, sou radicalmente autoral, daqueles que prefere o Chico cantando todas as suas músicas, inclusive as de mulher. Traduções, versões, ou a canalhice moderna de "dar uma nova roupagem" não mudam o fato que traduzir é interpretar, se colocar ao lado do autor, que é deus em sua obra. Portanto, por humilde subserviência teológica, leio sempre que posso no original, e nunca traduzo.

Mas, enfim, este blog é um espaço democrático, e a tradução do AltaVista é realmente uma droga. Tudo isso para dizer que a crítica é válida, e segue uma versão livre do manifesto anteriormente mencionado, ressalvando-se que há perda de qualidade:

Orgasmos

Por mais estranho que isso possa parecer o sexo não é percebido da mesma maneira pelos homens e pelas mulheres. Vocês me dirão que isso parece uma teoria bernardhenrilevyziana: este argumento é tão original quanto uma imitação de Patrick Sébastien. Pode ser, mas eu aponto o inimigo:

EU ACUSO O ORGASMO MÚLTIPLO DE SER A ORIGEM DA OPINIÃO NEGATIVA QUE AS MULHERES TÊM DA SEXUALIDADE MASCULINA.

Se para elas nós não somos mais que animais que não pensam em nada além de fornicar em posições que só um espírito perverso pode elaborar, o que elas não conseguem entender é nossa diferença natural ante à capacidade delas de gozar várias vezes sem mesmo parar para respirar (algumas chegam a bater no seu parceiro para evitar um curto-circuito neural após cinco minutos de orgasmo ininterrupto).

E sim madames, em um mês de atividades sexuais vocês podem acumular tantos orgasmos quanto nós em um ano... Sem se esquecer que durante o intercurso amoroso vocês saltam de orgasmo em orgasmo enquanto nós, sofredores, não pensamos em nada mais além de atrasar o inevitável, pois não há segunda chance.

Então para punir todos estes privilégios do prazer, adotemos a ejaculação precoce! Elas rirão menos!!! ah! ah! ah! Vamos frustrá-las!!! Antecipar as danações do orgasmo!

07 Julho 2006

Manifeste des Petites Morts

Que o desejo não seja um crime, e que a vontade seja o motor. Que a sede seja de corpos e o champagne sabor de pele. Que a música seja Ella, e o que o depois seja no Tom. Que os pés sejam pequenos e valsem juntos. Que as vitórias sejam efêmeras e as mortes, suaves. Que as mordidas sejam na orelha, e as carícias, interemináveis. Que a chama chame o imortal, posto que é chama, mas que seja eterno enquanto duro.


PS: Não costumo citar nem copiar neste blog, mas encontrei casualmente um texto sobre a mesma temática, portanto, segue:


Petites morts

Aussi étrange que cela puisse paraître le sexe n’est pas du tout perçu de la même manière chez les hommes et chez les femmes. Vous allez me dire que cela ressemble à une théorie bernardhenrilevyzienne : c’est plat et aussi original qu’une imitation de Patrick Sébastien. Peut-être mais moi, je désigne l’ennemi :

J’ACCUSE L’ORGASME MULTIPLE D’ETRE LA CAUSE DE L’OPINION NEGATIVE QU’ONT LES FEMMES DE LA SEXUALITE MASCULINE.

Si pour elles, nous ne sommes que des bêtes ne pensant qu’à forniquer dans des positions que seul un esprit pervers peut élaborer, c’est qu’elles ne comprennent pas notre inégalité naturelle face à leurs capacités à connaître la petite mort plusieurs fois de suite sans reprendre leur respiration (parfois même certaines frappent leur partenaire pour éviter le court circuit neuronal après cinq minutes d’orgasme en apnée).

Et oui mesdames, en un mois de rapports sexuels vous pouvez cumuler autant d’orgasmes que nous en une année... Sans oublier que durant le transport amoureux vous sautez d’orgasmes en orgasmes pendant que nous, souffrants sur l’ouvrage, nous ne pensons qu’à retarder l’inévitable car il n’y a pas de seconde chance.

Donc pour punir toutes ces privilégiées de la jouissance, adoptons l’éjaculation précose ! Elles rigolerons moins !!! ah !ah !ah ! Frustrons les !!! En avant les damnés de l’orgasme !

fonte: http://etmerde.atomysk.com/spip.php?article7